Conhecido no mundo todo como um dos símbolos do Reino Unido, o NHS ou Sistema Nacional de Saúde – o SUS britânico – está longe de ser uma unanimidade por aqui.  Entender os problemas do NHS é chave para perceber que até em países ditos desenvolvidos, o financiamento da saúde pública não é uma unanimidade, nem tampouco são as soluções.

No caso britânico, há vários tipos de agravante, incluindo uma população que cresce em decorrência da imigração, um governo conservador que busca “otimizar” os recursos, e um mercado bilionário de equipamentos para a saúde, que torna tratamentos cada vez mais caros.

Do ponto de vista do usuário, eu reuni três pontos principais para resumir as principais carências atuais do Sistema:

Acesso

O acesso ao NHS não é ruim. O agendamento online de consultas é simples, mas eficiente. Uma vez cadastrado no sistema, o paciente passa a receber confirmações por mensagem de texto no celular. Consultas podem ser agendadas via site nos ambulatórios.

Além do tempo de espera, é a distribuição deste acesso que deixa a desejar. Em janeiro de 2018, o NHS atingiu a pior marca de atendimento, com apenas 77% dos atendimentos de urgência acontecendo dentro de quatro horas.

Um dos principais pontos de controvérsia atualmente é sobre quem deve ter direito ao NHS. Muito já se falou na imprensa em limitar o acesso a consultas clínicas, ou permiti-lo, mas cobrar a posteriori. Na prática, isso já acontece isso com cidadãos europeus, cujos países de origem devem reembolsar o NHS.

 

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Source: Parliament.uk

Assim, cidadãos não-europeus, visitantes e demais membros da Commonwealth (comunidades de ex-colônias britânicas) podem usar o atendimento emergencial, mas é incerto se este será cobrado ou não.

 

No passado, o uso do Sistema de Saúde por parte de não contribuintes ou daqueles visitando o País (chamado health tourism) foi um dos argumentos da campanha pelo Brexit. Moradores do Reino Unido que tenham visto de permanência atrelado ao do cônjuge já pagam à parte uma taxa anual (a partir de £200 de acordo com a faixa etária), política que tende a se estender aos europeus após o Brexit.

Recursos humanos

Outra grande polêmica é sobre como recrutar pessoal suficiente para uma organização gigantesca. 12.5% dos 1.200,000 funcionários do NHS não são britânicos, com 62.000 vindos da União Europeia e 47.000 de origem asiática. Com cada vez mais dificuldade imposta aos que querem imigrar, a seleção de pessoas tem sido complicada e já se fala em crise de staff.

A crise de pessoal também afeta a disponibilidade de vagas na rede de hospitais, com grande escassez de médicos e enfermeiros. Com 10% dos médicos vindos da Europa, e mais de 100.000 vagas em aberto, é grande a preocupação do que acontecerá após o Brexit. Muito embora, o que mais detona mais protestos é mesmo o orçamento apertado do NHS, é o que mais se fala na imprensa, especialmente durante a gestão do ex-secretário da fazenda, George Osborne.

Cobertura

Quem já usou o NHS sabe que é limitado em muitos sentidos. As consultas demoram não mais que dez minutos e a quantidade de procedimentos cobertos é muito pequena. Muitos tratamentos são considerados não essenciais ou são prescritos para serem feitos em clínica particular.

Também, tratamentos vistos como estéticos, como contra calvície, são tradicionalmente negados. Além disso, raramente medicamentos são concedidos de graça e terapias alternativas (homeopatia, acupuntura) inexistem em grande parte.

Decadência?

Quem já viu o apreço com os britânicos falam do NHS, por exemplo, durante a abertura das Olimpíadas de Londres, imagina que o Sistema seja impecável. De fato, é uma referência positiva e motivo de orgulho. Não é à toa que a cada ano são organizados muitos protestos, conduzidos tanto por jovens quanto por pessoas de mais idade, ambos entoam o grito “salve o NHS”.

 

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Source: Carers.uk/The Times

Na verdade, chega a ser uma certa obsessão nacional e a primeira coisa a ser mencionada quando comparam Estados Unidos e Reino Unido.

 

No entanto, paradoxalmente, o apoio dos britânicos aos tories (conservadores) também têm se mantido forte. O que isso quer dizer? Este é o partido que guarda muita herança do governo Thatcher. Privatização, terceirização e para alguns, precarização, foram as marcas dos mais de dez anos dos conservadores no poder, entre os anos 1980 e início dos 1990.

Desde David Cameron há um grande coro para que se aumente a rubrica dedicada à saúde, mas pela falta de ambulâncias e de leitos neste inverno, não há qualquer expectativa que o budget aumente.

Futuro incerto

Não faz sentido comparar o NHS com outros sistemas de saúde pelo mundo, visto que cada país tem o seu modelo, tradição e prioridade.

No caso dos britânicos, o sistema de saúde surgiu junto a uma onda de serviços públicos criados entre os anos 1920 e 1940. Deste movimento ainda fazem parte a BBC, o British Council e várias entidades de classe e partidos políticos. O NHS faz parte desse universo o que o eleva como parte da identidade do cidadão comum. É por ter esse serviço que os britânicos se sentem mais britânicos.

Com o crescimento da população e dos atendimentos e o cenário pós-Brexit, a situação é nebulosa.  Com essas dificuldades de recrutamento, além de novas necessidades de tratamentos e modernização, pouco se sabe como será custeado o NHS daqui a dez anos.

Embora se fale cada vez mais em privatização com saída para a crise de caixa, o Sistema, assim como ele é, gratuito e semi-universal, continua a ser uma referência mundial em saúde pública.

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