Há algum tempo venho acompanhando blogs escritos por jornalistas brasileiros do exterior. Mais especificamente, observei um blog no site da Folha de S. Paulo e outro no Estado de S. Paulo, ambos sobre a vida em Portugal. Também li outro mais recente sobre Londres.

Não pretendo fazer uma crítica direta aos jornalistas que os produzem, nem muito menos à proposta de cada um. É necessária, porém, uma reflexão mais geral sobre como brasileiros tendem a ler o mundo “lá fora”. Talvez a crítica maior seja a respeito da crise da imprensa, que precisa se reinventar e, no interim, sacrifica a qualidade da cobertura internacional. Por ora, falemos sobre blogs que são muito acessados e que poderiam suprir essa demanda.

Ora pois
Blog Ora Pois da Folha de S. Paulo (reprodução)

Mais baratos que investir em cobertura tradicional, “blogs” de correspondentes têm surgido na imprensa tradicional como uma alternativa para ampliar a cobertura sobre o que acontece em outros países. O Frugal Traveller com dicas de viagens econômicas do New York Times é um exemplo de sucesso.

No caso do Brasil, muitos dos “blogueiros” dizem querer oferecer um “olhar brasileiro” do exterior. Na dúvida sobre o que isso significa, eu constatei que, muito frequentemente, os blogs caem em três tipos de histórias:

  1. É destinado ao brasileiro que percebe o exterior como “civilizado, avançado”, traz histórias de áreas de sucesso ou sobre personalidades. De outra forma, escrevem assuntos que mostram o quanto o Brasil ainda precisa resolver seus “problemas” em alguma área específica. Exemplo: Problemas com trens ou turismo, racismo, xenofobia.
  2. São problemas específicos dos países em questão, mas abordados de uma perspectiva distante ou que apenas repete a imprensa local. Os blogueiros não se preocupam em traduzir contextos, circunstâncias e história para um leitor que, provavelmente, saberá pouco para julgar o que acontece. Exemplo: casos de terrorismo.
  3. Aquelas que não abordam nenhum problema ou solução e só reproduz algum aspecto local com ênfase em histórias sobre “estilo de vida”, como “jornalismo de viagens”. Exemplo: Lançamento de vinhos e hotéis.

Não quero entrar na discussão sobre o que é correto ou errado, nem tampouco sobre o “complexo de vira-latas”, que acredito ser um certo clichê. No entanto, vale questionar o que seria um “olhar brasileiro” versus um olhar do Brasil.

No Brasil, do Brasil ou para o Brasil

Não se precisa estar no Brasil para se olhar do Brasil. Basta repetir o tipo de associação que se faz do País, especialmente quando o assunto são problemas que preocupam a maioria dos brasileiros, como a violência: “Aqui não funciona, lá sim”.

O problema desse olhar é que não ajuda a interpretar as condições locais de uma maneira que se pareça com a que os “locais” nos lugares. É uma perspectiva de fora para aqueles que estão fora.

Por exemplo, nas mesmas semanas em que os correspondentes repetiam que “Portugal foi eleito o melhor destino de férias”, em setembro de 2017, por que não focar no recorde de queimadas que o País sofreu? Ou, de Londres, por que discutir o que se sabe do Brasil ou o “peso da coroa” da Rainha quando tanta coisa tem acontecido no Reino Unido. Para ficar em exemplos simples: a queda no número dos imigrantes, greves nas universidades e inflação alta como resultado do Brexit. Por que, então, histórias não agradáveis – aquelas que aparecem mais na imprensa local – não geram blogs, colunas, posts?

Screen Shot 2017-09-10 at 9.59.29 PM
Reprodução – The Guardian

Por causa da repetição dessa forma de ver do Brasil e não para o Brasil é que pouco se fala da experiência real dos brasileiros no exterior. Em Portugal, têm-se publicado muito sobre brasileiros que compram casas, abrem firmas. Mas até que ponto isso é notícia para o Brasil? É essa a realidade da maioria que emigra para Portugal e para outros países? 

Basta abrir qualquer site da imprensa portuguesa e ver que brasileiros não são tão bem-vindos como se percebe. O caso de uma cidadã brasileira agredida na Universidade de Coimbra é um entre tantos outros que foram mal comentados pelos blogs. Em outros países, não é diferente. Não raramente cidadãos dos outros países propõem boicotes ao Brasil devido à sua gestão do meio ambiente, violência e desigualdade. Esses debates continuam invisíveis para repórteres brasileiros baseados no exterior.

Desconexão ou otimismo?

Eu pergunto, então, se essa desconexão entre o real e o ideal seria resultado de um otimismo exagerado ou de um profundo desconhecimento em relação à sociedade de onde se reporta. Afinal, pode-se morar uma vida toda em Londres ou Nova York e não se conhecer pessoalmente nenhum “local” por mais jornais que se leia e por mais “amigos” que se faça.

Essas são cidades de trânsito para muita gente, onde se vêm para estudar e passar por estágios na carreira, mas onde dificilmente se consegue o mesmo nível de leitura de alguém que passou a vida nessas ditas “capitais mundiais”.

Para argumentar pelo excesso de otimismo entre os blogueiros, eu teria de assumir que eles seguem a impressão da maioria dos brasileiros que visitam grandes cidades do hemisfério norte. Por que criticar um lugar onde se estará por pouco tempo e onde a maioria dos turistas encontra limpeza, segurança e a perfeita experiência turística?

No entanto, eu prefiro pensar que há um déficit de conhecimento ou uma desconexão com o exterior “profundo”. Mas também pode-se chamar de ignorância ou de pura inabilidade em interpretar a realidade. Afinal, o quão crítico alguém pode ser de uma realidade alheia e sobretudo culturalmente hegemônica?

Por outro lado, americanos e britânicos são, no geral, impassíveis quando reportam sobre a violência e aos problemas do Brasil (muitos dos quais sem solução imediata).

Snapshot portugues sportv
Facebook Vasco Mendonça (reprodução)

Uma hipótese por que isso acontece talvez surja ao olhar o perfil dos que escrevem do exterior. Uma boa parte dos jornalistas ou blogueiros não são pagos para reportarem de fora, mas escrevem por já estarem lá por motivos pessoais.

Fugindo de idealizações

Não é o caso de levarmos tão a sério assim o que são na verdade blogs. Por outro lado, a despeito do privilégio de cada um que pode falar para uma audiência diretamente dos países chamados de mainstream, na Europa ou dos Estados Unidos, o melhor para o jornalismo é algo bem diferente.

Sendo um pouco idealista aqui, num mundo sem crise da imprensa, blogs com grande acesso poderiam informar além das circunstâncias pessoais de seus autores. Não é o caso de ser a favor apenas de histórias negativas ou de uma crítica exacerbada, mas de deixar de ser refém de um jornalismo comercial sem sentido de existir e que não vale aquele clique.

O contrário de um olhar infantil sobre o exterior é promover uma maior aproximação crítica dos interesses conflitantes e das dificuldades enfrentadas pelos cidadãos locais.

Um exemplo de um bom blog que aparece sempre voltado a esses critérios é o da Sylvia Colombo, correspondente da Folha de S. Paulo em Buenos Aires.  Talvez por ser historiadora, ela conseguiu produzir algo simples, focado no contexto político e histórico da América do Sul, o que é desconhecido por muitos e sem par na mídia brasileira.

A obrigação daquele que escreve – em termos jornalísticos – de qualquer realidade distante seria a de reduzir as idealizações e aproximar o seu leitor do que ele não pode ver. Tendo em vista o fosso crítico que ainda separa o Brasil do mundo em muitos aspectos, isso é o mínimo que se pode esperar de uma imprensa que diz-se focada nos desmandos do poder.

Um comentário em “Otimistas ou desinformados? O problema dos blogs de jornalistas brasileiros no exterior

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s