A Folha de S. Paulo do domingo (25/03) publicou matéria sobre a indignação dos brasileiros com a Universidade de Coimbra. Estudantes afirmam que são obrigados a pagar mensalidades maiores do que portugueses ou europeus. A reportagem cita o “complicado” sistema que rege as universidades portuguesas, que dá margem a diferentes interpretações sobre custos.

O caso me fez lembrar que em 2014 conheci uma funcionária da Caixa Econômica Federal, que veio de Brasília, fazer mestrado em comunicação e mídia em Londres. Segundo ela, o curso fora em parte custeado pelo seu empregador (o que eu havia calculado em aproximadamente £40.000). Então perguntava-me se não havia outra alternativa mais barata de aprimoramento profissional.

Afinal, por que razão ir ao estrangeiro?

University_of_Strathclyde_Students'_UnionNa época, eu indaguei outros estudantes do mesmo curso e eles argumentaram uma conjunção de fatores: A experiência fora do país de origem, a “seriedade” dos cursos “lá fora”, o curto tempo de formação e a possibilidade de trocar ideias com outros profissionais.

Mas será que vale mesmo a pena? Será que quem paga sabe o que realmente são as universidades em outros países?

Aproveitando o tópico de Portugal, eu revisei alguns pontos em que a realidade difere daquela com a qual o brasileiro está acostumado. Mesmo que o foco aqui seja o caso inglês, o que tem acontecido em Portugal e em outros países do continente europeu tende a se tornar mais comum, com a transformação deste setor.

Custos demais: O caso inglês

As universidades inglesas, assim como as portuguesas e algumas europeias, dizem ter o direito de cobrar a mais de estudantes internacionais. Primeiro porque estes não estão cobertos por nenhum acordo entre seus países e a União Europeia (embora a educação pública seja gratuita ou semi-gratuita em países como Brasil e Argentina). Segundo, porque são estas taxas que acabam por subsidiar bolsas e descontos para alunos carentes locais.

Na prática, estudantes estrangeiros (tanto de graduação quanto de pós e doutorado) não só pagam uma mensalidade maior, como obviamente arcam com a maior parte dos chamados custos extras: transporte público, acomodação e assistência médica. Na maioria dos casos, precisam demonstrar que possuem esses fundos antecipadamente. Essa é a regra para todos, mesmo para bolsistas, como eram para partcipantes do extinto Ciências sem Fronteiras (que, aliás, viviam à mingua).

Há outras razões que levam à mudança do ensino superior em todo lugar. Vou desenvolver mais sobre o aspecto “qualidade”, que vem muito à tona quando fala-se na imagem do ensino nos países desenvolvidos. Por que há universidades vistas como tão boas e atraentes? Além do fato de algumas serem mesmo verdadeiramente boas e atraentes, há também o outro lado, um mercado destinado a estudantes de países como Brasil, China e até mesmo Estados Unidos, que fazem parte de um certo filão.

Por trás da universidade “Padrão FIFA”

Ainda sobre o caso inglês, precisamos ver o tema “universidades” como uma grande indústria. É focada ao ensino e pesquisa e, aqui, não há nada de errado em vê-la como uma “indústria”, que, aliás, é um dos pilares econômicos do País pós-Tony Blair.

As universidades britânicas (especialmente as inglesas e galesas, menos as escocesas, que são gratuitas) são muito apoiadas pelo British Council com essa finalidade. São “vendidas” mundo à fora por meio de eventos como o “Universities UK”.

São nestes workshops realizados em hoteis caros de cidades como Rio e São Paulo onde se vende a “marca” do País no exterior como lar de grandes instituições de ensino, o que é, em parte, verdade. Em parte porque há uma indústria de legitimação por trás. Esta parte engloba desde rankings como o The Times Higher Education, como a endêmica quantidade de publicações, periódicos acadêmicos, conferências e “indicadores internacionais”, que põem as universidades britâncias, invariavelmente, em primeiro lugar.

Será que sem esses incentivos e estrutura, o resultado de rankings seriam os mesmos?

Além de prédios luxuosos e bibliotecas bem servidas e liberdade para montarem programas de ensino arrojado, o que se chamam de “universidades” por aqui são instituições que cobram de todos (mesmo dos que não têm como pagar) e apresentam margem de lucro cada vez maior. Mais uma vez, o dinheiro sai das mensalidades, especialmente de estudantes vindos de países não desenvolvidos.

A realidade é que, funcionando como grandes corporações, os salários dos “presidentes” dessas universidades crescem a cada ano. Luxuosos campi são abertos em países como Qatar ou China. Enquanto a mão de obra acadêmica assalariada declina, o tamanho do quadro administrativo aumenta.

Em termos de sala de aula, muito do volume de cursos (muitos dos quais exageram na criatividade dos nomes e no marketing envolvidos) são ministrados por doutorandos dessas mesmas instituições. Alunos do PhD não apenas pagam por estudar, mas se forem bolsistas, são “obrigados” a passar pela “experiência” de ensinar. Muitas vezes levam três turmas seguidas, como foi o meu caso.

Greve

Não é à toa que nas últimas semanas de fevereiro, a academia britânica (Higher Education) experimentou sua maior greve nas últimas décadas. Professores de todos os níveis, incluindo pesquisadores, estudantes e alguns funcionários administrativos, pararam por vários dias, durante semanas, em protesto pelo fim da aposentadoria integral.

Leeds_University_students_supporting_the_2018_USS_Pension_Strikes_(2)Eles argumentavam que, por começarem tarde na profissão, alguns com quarenta anos, saíam na desvantagem por não conseguirem construir um fundo de pensão suficiente para uma boa aposentadoria. Mas sabe-se que a razão das greves foi bem mais ampla e vem do descontentamento com a precarização e comercialização crescendo no mesmo ritmo.

Do outro lado, o orgão regulador das universidades (Universities UK) tem argumentado que alguns professores poderiam sair ganhando com a mudança, a depender de como o fundo vai na bolsa e da economia mundial etc. As discussões continuam, assim como o déficit do fundo de pensão, hoje orçado em 6 bilhões de pounds. Os professores, por outro lado, argumentam que perderão em média £10 mil por ano no final da carreira.

Outros problemas: A trivialização do ensino

Além da questão das pensões, os docentes também reclamam de um sistema de avaliação dito como insensato, que obriga a cada professor a ter pelo menos duas publicações por ano, organizar eventos, estar sempre “disponível” a alunos. No futuro, haverá até um ranking para que eles sejam avaliados pela qualidade do “ensino”, avaliação, métrica esta que sairá do que o aluno disser na sala de aula.

Sabendo-se do que alunos descontentes são capazes, essa ideia de avaliação é questionável, sob risco de trivializar a finalidade da educação (aprender, refletir) ao submetê-la a objetivos menos nobres (avaliar consumo, punir ‘prestadores de serviço’) e enfim, fazendo da educação um “vale-tudo” baseado em mercado e competitividade.

Por outro lado, há estudantes britânicos que se queixam cada vez mais dos custos de acessar o sistema de ensino superior. Cada um deles termina a graducação devendo, em média, £60 mil aos bancos.

Enquanto não há decisão em relação à pensão dos professores e nenhum sinal de que o custo de aprender vá cair para o “consumidor” universitário, o número de novos alunos estrangeiros, paradoxalmente, tem baixado marginalmente desde o voto pelo Brexit. Se esta queda será persistente ou não, é difícil saber.

O que fica cada vez mais evidente é a pressão sobre este sistema universitário “corporativo”, mas que provoca inveja e é desejo de consumo no mundo todo.

Há os que defendam a volta para o padrão antes do Tony Blair, outros acreditam que, para competir com os Estados Unidos e Australia, o País tenha que liberalizar ainda mais.

Conclusão

Dado todo este bastidor, o dinheiro de um aluno indiano ou de um brasileiro vem para subsidiar este sistema e aumentar os dilemas. Alguns dizem que, desse jeito, é insustentável. Do ponto de vista imigratório, há a pressão para que os estudantes saiam do número oficial de ‘imigrantes’, já que hoje eles são contados como qualquer outro grupo que venha morar ao País.

Mesmo com as dificuldades de criar um sistema mais humano e que resgate o valor da educação não como um produto, ao mesmo tempo que seja legitimamente sustentada pela sociedade, a principal beneficiária, não há sinal de que algo irá mudar enquanto os conservadores estiverem no poder.

Por haver um perfil de “cliente” que está disposto a viajar grandes distâncias, pagar pequenas fortunas, e o pior, fazê-lo sem conhecer completamente a realidade, não há motivo para que essas instituições cedam, nem este seja interesse de governos. Embora este não seja o caso de Portugal, ainda, é evidente que cursos dominados serão os mais visados daqui pra frente.

Levar um diploma de uma universidade estrangeira pode representar um prestígio em países em que a educação é dita como atrasada ou precária. Porém, é preciso ressaltar que muitos desses países, inclusive o Brasil, a educação gratuita ainda conserva seus fundamentos clássicos e estes deveriam ser mais valorizados.

Defender isso é diferente de defender as estruturas precárias e as greves tão famosas nas universidades federais e que também afetam a qualidade desse ensino. Não adianta, afinal, ser gratuito e não cumprir o seu objetivo. Por outro lado, educação não é apenas empregabilidade e prestígio, como vimos, há muito mais por detrás dos ditos “rankings” mundiais.

Em termos de educação no exterior, deve-se ter cuidado com o mito de “estudar fora” como a epítome de sucesso e privilégio. No longo prazo, pode fazer muito pouco sentido no aspecto financeiro, além de colaborar para a comodificação do ensino, especialmente quando se desconhece as condições do país que se elege.

Um comentário em “Sobre o mito de estudar “fora”

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