Os argumentos contra a Família Real britânica dominam os debates desde, pelo menos, Oliver Cromwell. Neste ponto da história, é improdutivo debruçar-se em análises sobre a sua resistência e fama (ou porque exerce tanto fascínio em realidades longíquas, como a do Brasil), até mesmo porque não há uma perspectiva clara de que qualquer um desses argumentos contra vá se materializar no curto prazo ou influenciar quem quer que seja.

O que é mais produtivo e prazeroso, no entanto, é olhar como se comportam alguns súditos; ver como os britânicos mais sarcásticos e inteligentes têm lido a sobrevivência daquela que é, se não uma das mais antigas, a mais midiática das monarquias modernas.

Seja por vulgarizar elementos que em si não guardam qualquer sombra de sentido, como uma chefe de Estado de 92 anos cujo nome virou metáfora para aqueles que não têm poder; seja por ridicularizar ainda mais um nome real inventado, Windsor; ou por vender em seriados e romances personagens com funções vazias e vidas pseudo-escandalosas, os chamados “reais” merecem a chacota.

Dentre as tiradas sobre este absurdo real todo, resgato um texto de Christopher Hitchens, o famoso ateísta. Paradoxalmente, Hitchens é irmão de um dos comentadores mais respeitados da mídia britânica, Peter Hitchens (este, ao contrário, monarquista e conservador).

Em dezembro de 2000, depois da ressaca da “virada do milênio”, e alguns anos após o do luto geral pela Diana ter esvaecido, Hitchens escreve algo muito lúcido sobre como “aguentar” os “reais” sem perder a cabeça. Ao invés de profetizar o fim da monarquia, segundo ele, o País precisava “crescer para fora dela”, ou seja amadurecer para que se alcançasse o porquê de ser uma república.

Para Hitchens, em resumo, não era o caso de abolir o regime simplesmente, mas criar condições para que o cômodo sistema que gira em torno dele, e se alimenta dele (ex. a mídia), não faça mais sentido e seja obrigado a romper.

Eu traduzi alguns trechos que dizem muito sobre a comoção em torno do casamento real em maio de 2018. Hitchens resumiu como ninguém o comodismo que mantém a realeza ali no lugar dela e como esta presença esconde discussões mais profundas:

“Mais abaixo na escala social, porém, o princípio monárquico é um obstáculo para precisamente aquele senso de responsabilidade sobre o qual ouvimos tanto. Não pode ser bom para aquelas pessoas que levam vidas vicárias, feitas em parte de lascívia e em parte de deferência, e que ainda assim são fixadas nos feitos de uma família indistinta e mimada.

Se eu pareço esnobe, posso falar da parte do público com a qual estou mais familiarizado: os humildes drusos que fazem os jornais da nação. O tema “real” opera entre esses com a intensidade da lei de Gresham, encorajando a preguiça, o sentimentalismo e a salubridade, enchendo páginas e páginas, e encorajando o desprezo deles próprios pelos leitores, fazendo de si mesmos um alvo tão fácil.”

A solução, segundo Hitchens, é ignorar essa mesma imprensa autossabotadora por meio de uma resistência individual. O contrário disso seria defender o fim imediato da monarquia, mas deparar-se com uma “presidência imperial”, ou seja, ter mais do mesmo por cidadãos que não conhecem outra realidade:

O que se quer propor, portanto, não é que abolamos a monarquia, mas que a transcendamos ou, para colocá-la em termos mais antiquados, que cresçamos fora dela. Remover os Windsors pelo golpe de uma caneta legislativa seria altamente satisfatório de um modo, mas decepcionante em outro. O infantilismo e o cretinismo da imprensa, por exemplo, não podem ser curados apenas por um decreto. O que deve começar agora é o processo de nos emanciparmos dos hábitos mentais do monarquismo, e os muitos apoios que ele fornece a atitudes irrefletidas e práticas disfuncionais.

Os desdenhadores estão certos em certo sentido: dificilmente seria progresso se desbaratássemos os Windsor e depois nos prostrássemos aos pés de uma presidência imperial. Mas se o argumento for corretamente conduzido, então as atitudes necessárias para nos levar a uma república democrática – ou federação de repúblicas democráticas – seria o mais seguro. Até começarmos a pensar como republicanos democráticos, cultuarmos e recompensarmos virtudes republicanas democráticas.

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