Se o espetáculo nacionalista do Brexit pode ter em certa medida raízes nostálgicas, de uma Inglaterra grande e imperial, o mesmo pode estar a ocorrer em outras partes da Europa.

Em janeiro de 2019, calcula-se que dezenas de milhares de pessoas tenham lotado a praça Syntagma, em Atenas, para protestar contra o acordo que permitiu a mudança de nome da Macedônia (futura Macedônia do Norte). Dizem os protestantes que a “Macedônia é grega”.

Em resumo, os gregos reclamam um nome que é usado pelo minúsculo do norte desde o quarto século antes de Cristo. Ao encerrar a questão mudando o nome para a Macedônia do Norte, o país conseguirá aspirar o seu futuro dentro da União Europeia.

O Brexit inspirou fantasias de que a Inglaterra retornaria às glórias do Império Britânico. “Eles merecem um lugar especial no inferno” falou nesta quarta-feira, 06/02, Donald Tusk, Presidente do Conselho Europeu

O grande ponto dos gregos é que a Macedônia não apenas é grega, mas os atuais macedonios não podem usar nem o nome, muito menos os símbolos tidos como “gregos”, como o Alexandre, O Grande (nascido em atual território macedônio), o sol “Sol de Vergina”, entre outros. Estes são símbolos retirados diretamente da antiguidade, quando a noção de “país como Estado” ainda estava longe de existir.

Quando olha-se de perto as reclamações gregas, é possível ver que tais concepções e reinvidicações vêm de questões que são antigas, mas que ganharam uma plataforma nas últimas décadas.

Skopje, na Macedônia, futura Macedônia do Norte, com a estátua de Alexandre, o Grande ao fundo.

Sem discutir o mérito de cada identidade nacional, um conceito também construído sobre mitos, a questão Macedônia-Grécia chama a atenção por pertencer a um padrão muito subjetivo de reinvidicação, a qual é cada vez mais visível na Europa toda.

Seja no Brexit, como dito, ou na Hungria nacionalista do Orbán, onde, literalmente, chuta-se imigrantes em nome de um país utopicamente ‘fechado’; ou na Escócia independente, e até na Catalunha, que reivindica a independência há 300 anos.

Todos esses países reinvidicam mais autonomia e poder baseados em episódios históricos não resolvidos ou que vêm sendo ressuscitados para que partidos ou políticos atinjam ganhos políticos.

No caso da Grécia, ficou visível que grande parte dos protestos é capitaneada pela direita e extrema-direita, cujo discurso gera uma polarização capaz de atrair multidões às ruas. Em termos de comparação, nem fatos mais urgentes, como a explosão da dívida, havia conseguido tamanho comparecimento da população às ruas.

Revisionismo como patriotismo também acontece dos gregos em relação à Turquia, seu colonizador por 300 anos. Ocasionalmente, insultos são trocados entre os países. A Grécia foi reconhecida como país soberano em 1832.

Protestos na Hungria. Foto: Wikipedia Commons

O que há agora, no entanto, é um ressurgimento de fatos aparentemente assimilados. Alguns são derivados de mitos e da cultura clássica, hoje transformados em discurso político novo.

O problema é que esse “novo passado”, processado e classificado como urgente e político, não atende a qualquer problema real da sociedade. É difícil não interpretar essa repentina sede de justiça histórica como a reafirmação de uma força política nacionalista e identitária no seu melhor; xenófoba e racista na pior das hipóteses.

Enquanto isso, em Portugal

Não é possível comentar a questão nacionalista desses países europeus sem mencionar Portugal.

Muito embora o pequeno país ibérico esteja a receber cada vez mais imigrantes brasileiros e asiáticos sem aparentes problemas, há divisões muito mais profundas no quesito identidade, nacionalidade e cultura que ainda provocam.

Em 23/01 o jornal Público publicou um artigo sobre o manifesto de um grupo que reuniu 2.000 assinaturas contra o Acordo Ortográfico que unificou a escrita entre alguns países lusófonos: “O que nasce torto nunca se endireita”, diziam os organizadores.

O Acordo está longe de ser perfeito e foi muito criticado por considerar mais a fala brasileira do que a pronúncia em Portugal.

Protesto em Barcelona com a bandeira da Catalunha

O propósito dos manifestantes parece requerer que não haja Acordo algum e que cada país volte a escrever como antes.

Sem entrar na validade do Acordo ou desses protestos, os quais vêm desde então visando atender quase que exclusivamente o lado português de escrever como quer, há um pouco do revisionismo grego nisso.

Primeiro porque a língua portuguesa acaba por ser vista como um patrimônio nacional (como os símbolos antigos da Macedônia/Grécia) e não como uma convenção aberta, mutante. Embora compartilhada entre povos vivendo em realidades diferentes, todos, em tese, têm a ganhar com a uniformazição.

Segundo, porque qualquer possibilidade de formalizar essa herança comum, que é a língua, é vista com desconfiança em Portugal.

Ao contrário do que ocorreu com outras línguas coloniais como o espanhol ou o inglês, o português é ainda visto como se pertencesse a uma matriz portuguesa em Portugal e essa matriz sente-se no direito de boicotar qualquer mudança que altere seu próprio uso da língua, a política europeia passa por um momento delicado de contestações às quais não há resposta pronta e rápida. O Gilets Jaunes franceses têm mostrado o quanto essas reinvidações são difíceis de atender e como os protestos ganham mídia facilmente hoje em dia.

Seja como for, fica claro que a história não é apenas contada pelos vencedores, mas em uma época de guerras culturais, reescrever a história parece que entrou no vocabulário político de vez.

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