O programa BBC Civilisation foi para a BBC britânica o que o Globo Repórter foi (e talvez ainda seja) para a televisão brasileira. Numa escala de importância um pouco maior.

Produzida no final dos anos 1960, o programa foi inovador desde o princípio. Trazer crítica de arte para as massas. Naquela época, num Reino Unido ainda muito isolado do resto da Europa.

Apresentado pelo historiador da arte Kenneth Clark, a série de 13 episódios tratou de um assunto dito como muito intelectualizado, mas sem fazer concessões popularescas: Apresentou o surgimento da civilização ocidental a partir de episódios e lugares-chave, sempre com uma linguagem simples mas profunda.

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Kenneth Clark foi uma figura fundamental para a popularização do documentário na BBC

Clark visitou vários países europeus para mostrar como museus, catedrais, praças, cidades e outras demonstrações artísticas e arquitetônicas são manifestações de como um povo sai do que entende-se como barbárie e entra naquilo que ele chama de civilização.

A série BBC Civilisation liga o barroco italiano com a sociedade patriarcal católica; a história da Roma Antiga, o Renascimento e o neoclassicismo; e ainda, o culto da burguesia à sua própria imagem em todas as épocas. A série também traz um banquete de imagens, músicas, e analogias que não envelheceram.

Fast Forward para 2018, encontramos a BBC retomando o projeto com uma proposta mais ampla; refazer Civilisation acrescentando um no final, de forma a refletir uma noção mais ampla sobre o assunto.

Ou seja, em vez de um apresentador branco, britânico e de terno tweed, temos três apresentadores: Uma mulher e dois homens. Os três de origens completamente diferentes: Mary Beard, Simon Chama, David Olusoga. Todos eles conceituados apresentadores e acadêmicos. A série já não foca na Europa, mas numa dezena de países ao redor do mundo para apresentar ligações culturais mais profundas, na ideia de educar o espectador sobre como ver ao invés de o que ver.

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Mary Beard com os Guerreiros de Terracota de Qui Shi Huang. Fonte: BBC

Encontramos então as mesquitas iranianas que dialogam com palazzos venezianos; civilizações meso-americanas que esculpem com na China de clãs arcaicos; estátuas gregas que dialogam com as formas das ruínas indianas. Tudo isso é mostrado em nove episódios: cinco propostos pelo Schama, e dois apresentados pela Beard e pelo Olusoga.

Novas ausências

Se o primeiro Civilisation havia sido criticado pelo caráter essencialmente eurocêntrico da narrativa, ou seja, privilegiar a Europa como o centro do mundo, se nele “civilização” é tudo aquilo que o velho continente já produziu, o novo Civilisation propõe corrigir.

No entanto, a nova série também esbarra em outras controvérsias.

O autor Kenan Malik, escrevendo para o Guardian, diz que a série não responde questões essenciais do que é mesmo “civilização, falhando ao não reconhecer o trabalho do crítico John Berger. O Daily Telegraph chamou o programa de “cínico” por relativizar os feitos “heróicos” da civilização ocidental.

A crítica mais ferrenha, surpreendentemente, veio da própria BBC, do colunista de arte Will Gompertz, que descreveu o programa como

“Um motorista de caminhão negociando para entrar numa rotatória enquanto come espaguete”.

Nem todos foram tão ácidos. O site Inews falou mal dos criticos que não gostaram, segundo a crítica Yasmin Alibhai-Brown:

“Jornalistas de direita, rancorosos da classe alta, velhos de Oxford e Cambridge e mal humorados que gostariam de ser levados numa máquina do tempo de volta aos seus tons de sépia”.

Ou seja, as críticas que o programa recebeu foram concentradas na brevidade dos comentários sobre cada cultura que ele explorou, diante da amplitude da proposta.

O próprio Gompertz admitiu que as imagens dos filmes são o que há de melhor em tecnologia com drones e novos equipamentos. Pode-se fotografar sítios históricos de uma maneira na qual eles nunca haviam sido vistos antes. Por outro lado há uma falta de foco que Clark resolvia muito bem ao chamar o roteiro de “sua visão pessoal”: Limitada, mas não reducionista em sua essência.

Assistir a ambos programas é sobretudo um deleite. Seja pelas imagens e pelo repertório da arte universal. De um ponto de vista mais crítico, se o programa do Clark tem o tempo como aliado por algumas de suas omissões, o novo Civilisations peca pelo mesmo motivo, tenta refletir demais as paixões identitárias do nosso tempo.

De um lado, há a mesma estética de exploração perigosa e clandestina (a vinheta traz algo como se fossem mosquitos ao redor de uma estátua antiga, tal qual no livro do Conrad, em que o narrador desbrava a Amazônia); de outro, há a própria tentação em explicar-se o mundo, como se o mundo precisasse dos britânicos para ser explicado, organizado e interpretado. Já vimos esse filme antes.

Porém, o que mais me chama a atenção é aquilo que o novo programa não diz.

Nossas ausências

Tendo visto os dois documentários, acredito ainda que o formato do Civilisation, sem o s, atende bem melhor ao explorar um conceito tão estreito como o de civilização. É uma narrativa de um homem sozinho, meio desajeitado, quase que perdido na paisagem ancestral, tentando explicar aquilo que ele vê. Basta. Afinal, o que é civilização?

No primeiro programa, Clark diz que “não sabe bem o que é, mas consegue reconhecer quando vê a Catedral de Notre Dame, em Paris.

Em outras palavras, sem problematizar o próprio conceito-título, Clark assumiu para si a tarefa de montar numa narrativa de começo e fim. De movimentos artísticos, costumes, dando clara prioridade ao homem europeu, como ele mesmo.

Sobre a nova série, Civilisations, fica evidente que não cumpre-se nem esse nem outro propósito.

Grandiosamente anunciada em conferências de imprensa e entrevistas, os objetivos são tão auto-engrandecedores e ambiciosos  que não é possível dar uma cara à empreitada.

Na verdade, insistir mais nesse conceito, no seu valor para o homem moderno, não é mais “civilizado”. Não é mais possível desmerecer outros povos, como a China, pondo-os como “não civilizados”. O que o problema erra é não dizer que os chineses têm o direito de não serem “uma civilização” e de nem saberem o que é isso. Eles são o que são e está bom.

Encaixá-los como “uma civilização” é ainda querer assumir o controle de uma narrativa civilizatória que falhou. E falhou dentro da própria Europa.

Em segundo lugar, o fato de que uma série, em 2018, não dedique espaço algum à “civilização” da América do Sul é imperdoável.

Fora uma exploração breve das civilizações pré-colombianas pouco ou nada se acha do México pra baixo. Isso diz-nos bastante do que os britânicos pensam a respeito da América do Sul.

A Mary Beard e o Schama fazem uma longa visita pela América Central e explicam a cultura maia, vão ao fantástico Museu Nacional de Arqueologia do México. Enquanto o Olusoga faz o mesmo tour pela África.

Mas em nenhum momento reconhecem movimentos como a mestisaje como tentativas centro e sul-americanas de se estabelecerem como novas “civilizações”.

Hão de argumentar que esta faz parte da civilização europeia, africana e asiática e por isso dispensa um tratamento especial.

O problema é que isso é não sustenta-se quando chegamos ao ponto em que eles dedicam aos Estados Unidos tão ou mais tempo que todas as outras culturas da América. Este é o novo mundo e a sua civilização. Apenas.

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O historiador Simon Schama visita a cultura indigena norte-americana e sítios importantes como o famoso monte Yosemite. Fonte: BBC

Já havia uma tentativa de enxergar a cultura europeia introduzida na Costa Leste americana como uma civilização à parte, assim como em 1969. Mas naqueles tempos a influência americana em moldar uma narrativa de “Ocidente” atingia patamares muito maiores que hoje; sem falar na falta de tecnologia, informação e desenvolvimento dos outros países americanos, muitos engolfados por golpes de Estado.

A pergunta persiste. Por que não visitar o Parque Nacional das Capivaras? Por que não falar da cultura ibérica que se desenvolveu na América do Sul após o século XVI?

O barroco europeu com suas variações mestiças, a rica cultura afro-brasileira, os pampas gaúchos, as missões jesuítas, a língua tupi-guarani e os povos que habitaram a Amazônia. São esses os elementos que faltam – além de muitos outros – para que “civilização” fizesse jus aos descendentes dos maias, astecas e tantos outros povos originários.

Mas o foco do novo Civilisations ainda pode ser um reflexo do que fica de fora quando produtores cedem muito às novas reivindicações identitárias do presente. Aqueles grupos que devem estar na mídia, basicamente os que os americanos da Costa Leste acham que sim.

Nem por isso, como vemos, acaba-se por obter uma forma mais justa de narrar a realidade.

Fry South America
Stephen Fry com indígenas na América Central. Fonte: BBC

Sabe-se que os britânicos de hoje não têm muitos olhos para regiões periféricas do mundo, eles próprios nas vésperas de se tornaram a periferia da Europa.

Sabe-se também que conhecem ainda menos os países que não fizeram parte do seu ex-império. Quando tentam ir além disso, pecam pelo estereótipo e olhar descompromissado de quem procura o “exótico” – isso vale para uma geração de apresentadores, do Michael Palin ao Stephen Fry (foto).

Por outro lado, o que é possível concluir é que a imagem da BBC como uma ilha de “liberais de Londres” acaba também por fazer sentido.

A propósito, a ótima qualidade do programa apresentado por Kenneth Clark em 1969 também soa como lembrete sobre a caducidade do termo “civilização”. O apego a este termo soou melhor há 50 anos e é melhor que fique confinado ali mesmo.

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