No ano em que o Reino Unido perde uma grande escritora, Andrea Levy, é apropriado lembrar de 5 fatos que contribuíram para que o Reino Unido se tornasse um dos países mais hostis à imigração no mundo ocidental.

O deputado Nigel Farage em frente a um poster anti-imigração durante a campanha pelo Brexit. Crédito: Daily Mail

Levy contou no seu livro Small Land, a história de imigrantes da Geração Windrush. Multidões chegaram nos anos 1950 a bordo do navio de mesmo nome. Vindos da Jamaica e das outras ex-colônias britânicas, eles se estabeleceram no país, constituíram família, trabalharam, alguns se aposentaram.

Infelizmente, em 2018 muitos deles viram suas vidas destruídas por deportações repentinas. Cidadãos comuns, muitos com 70 anos de idade ao mais, que viram-se obrigados a voltar para países dos quais saíram ainda muito jovens. Outros casos envolveram a separação de pais e bebês, mulheres grávidas, e famílias cujo o pai ou mãe teve de deixar para trás os filhos ainda jovens.

A imprensa britânica classifica esse conjunto de políticas implementadas pelos Conservadores como provocadoras de um “ambiente hostil à imigração”.

Muito antes do Brexit, algumas dessas medidas foram introduzidas desde os tempos de Theresa May como Secretária do Interior.

São políticas destinadas a reduzir à imigração em massa, mas que têm tido resultados catastróficos para os imigrantes, que acabam perseguidos pela polícia, deportados, e vítimas de maus tratos.

Embora seja considerada uma cidade pacífica, e é, Londres tem presenciado vários casos de intolerância racial ou cultural.

Para choque da opinião pública, muitas dessas deportações foram depois consideradas ilegais pelo Departamento do Interior (Home Office). Muitos políticos, colunistas de jornal e ativistas consideraram uma política de Estado que tinha viés racista e cujo objetivo era conter a miscigenação na sociedade britânica.

Seja como for, escândalos como o do Windrush têm acontecido ao longo dos últimos anos, fazendo com que a vida dos imigrantes, especialmente os de origem africana ou caribenha, ficasse insuportável. Mas não apenas eles têm sofrido.

O Lá Fora revisita alguns dos episódios recentes que levaram ao chamado ‘ambiente hostil à imigração’ no Reino Unido.

  1. O aumento de ataques racistas e pânico na propaganda oficial

O caso de um casal de brasileiros agredidos na rua por uma mulher soma-se a tantos outros registrados no dia a dia. Um dia após o referendo que votou pelo Brexit, o país assistiu ao aumento de casos como o centro de cultura polonesa de Hammersmith que foi depredado.

Jovem refugiado sírio é agredido por colegas em escola primária de Huddersfield, Inglaterra. Crédito: Daily Mirror

Há alguns meses, um vídeo em que um garoto sírio reage a um episódio de bullying em Huddersfield, no norte, viralizou. O episódio mostrou como o clima de intolerância tem crescido até em escolas primárias.

Por mais que o governo diga não ter responsabilidade direta pelo extremismo, grande parte desses episódios relaciona-se com políticas de Estado.

O assassinato da deputada trabalhista Jo Cox deu-se, em grande parte, por um radical de direita que atacava sua plataforma (muito voltada à imigração e tolerância).

Vale lembrar que muito desse clima segue uma série de propagandas oficiais ou de partidos:

Em 2014, Theresa May foi quem patrocinou uma medida de liberar vans em bairros de Londres clamando “imigrantes ilegais” a irem pra casa ou enfrentarem a Justiça. O partido de extrema-direita UKIP fez diversas campanhas com imagens da crise de refugiados sírios denunciando a invasão deles à Inglaterra. Em 2018, o então ministro de relações exteriores, Boris Johnson, comparou mulheres muçulmanos a caixas de correio.

Essas e outras ações só fizeram acirrar mais a opinião pública.

2. Centro de detenção, deportações secretas e vôos fantasmas

Há anos ativistas denunciam não apenas o centro de detenção de imigrantes em Yarl’s Wood, considerado desumano e uma versão local de Guantánamo, como também os voos “fantasmas” que partem no meio da madrugada.

Jornalistas já flagraram muitos desses vôos, que são fretados para retornar imigrantes. A maioria deles vão para países africanos. Eles partem do aeroporto Gatwick e vão parando em países como Nigéria, Congo e Etiópia, sem provocar alarde.

Theresa May pede desculpas a representantes da geração Windrush

As cenas de embarque destes voos são dramáticas (muitas no YouTube), em que policiais literalmente arrastam detentos de prisões imigratórias contra a sua vontade. Quando imigrantes conseguem contestar tais procedimentos, alguns deles ainda ficam presos por meses sem expectativa do que irá acontecer. Outros precisam apresentar-se semanalmente ao Home Office.

Há também o problema com os chamados “imigrantes” bem educados (high skill).

Meses atrás o secretário do interior disse querer bloquear o fluxo de imigrantes de baixa qualificação após o Brexit. Ele propôs aceitar apenas imigrantes que já venham com um emprego certo e ganhando mais que £30.000, um salário irreal para a maioria dos imigrantes, inclusive para enfermeiras e trabalhadores da construção civil. Essas categorias correspondem a um grande fluxo de estrangeiros sazonais.

Críticos chamam essa posição do governo de hipócrita, haja vista o número de imigrantes fazendo trabalho de baixa qualificação ou que os britânicos não dispõem-se. Muitos casos envolveram a deportação automática de cientistas, pesquisadores e artistas.

Ex-doutorando Paul Hamilton deportado do Reino Unido e sem direito à defesa (foto: The Independent)

Por exemplo, quando foram à casa do ex-doutorando americano Paul Hamilton, especialista em Shakespeare, e o deportaram de pijamas sem possibilidade de defesa.

Hamilton viu-se tendo de fazer a mala às pressas e com policiais esperando à sua porta. Ele depois descreveu a experiência como brutal e sem sentido, uma vez que já havia concordado em sair do país.

3. Pressão por metas de imigração e endurecimento das leis

No Reino Unido, o sistema do chamado Home Office já obedece a uma lei considerada rigorosa por muitos.

Por exemplo, se um cidadão britânico casa-se com qualquer pessoa de outro país não europeu (o que mudará após o Brexit), ele só poderá convidar esta pessoa para morar na Inglaterra, País de Gales ou Escócia se tiver rendimentos acima de 22.000 libras ao ano.

A medida é tida como discriminatória e já foi contestada diversas vezes na Corte Europeia de Justiça.

O que muitos acham crueldade – condicionar livre movimento de cidadãos e seus cônjuges – outros acham necessário para pagar os custos dos serviços públicos que o novo cidadão trará.

O problema é um sistema rigoroso cometer tantos erros e afetar milhares de cidadãos. Alguns questionam a origem dessa agenda agressiva contra os imigrantes.

Tony Blair, Primeiro Ministro de 1997 a 2007, abriu as portas do país tão logo países com alta emigração do leste, como a Polônia, ingressaram na zona de livre movimento da UE. Menos de dez anos depois, David Cameron convocou um referendo o bloco europeu com claro incômodo a respeito da imigração. Em resumo, a agenda imigratória vinha crescendo há anos.

Vans do governo ameaçam imigrantes em bairros da periferia

Uma meta de 200.000 imigrantes foi estabelecida pela então Secretária do Interior, Theresa May, a qual, segundo analistas, sempre foi inexequível. O ápice desta política de perseguição foram ideias de May, como a van que circulava em subúrbios ameaçando aqueles sem documentos.

Críticos do partido Conservador apontam ser este um desvio ideológico para que a população não preste atenção aos cortes no orçamento.

Muitos dizem que os imigrantes seriam bodes-expiatórios; outros apontam para o viés racista e elitista dessa agenda, já que os mais atingidos pelo cerco à imigração de massa são cidadãos de países de população não branca ou mais pobre, como foi com o Windrush.

4. A guerra contra o multiculturalismo e o retorno a um passado imaginado

Por muitos anos têm se falado em “comunidades destruídas” pela imigração no Reino Unido.

Vídeos no YouTube e conteúdo em redes sociais alimentam mitos de que o país está cercado e sua cultura sendo dizimada pelos imigrantes.

Revistas como a direitista Spike têm artigos em que coloca como desvio cultural causado por imigrantes e o medo por uma Inglaterra não branca. Essa narrativa, no entanto, segue sem apontar quais seriam as causas dessa destruição, nem como ela acontece. O que se sabe, por outro lado, são dos benefícios da imigração para o país.

Essa imagem viralizou porque mostra o quão diverso é o sistema de saúde britânico

Cadeias alimentícias, o setor de hospitalidade, e o serviço público de saúde (NHS) são alguns dos que dependem muito de imigrantes.

Por outro lado, personalidades vão à mídia constantemente reclamar do sotaque inglês que eles ouvem nas ruas ou que cidadãos europeus vêm para tomar os empregos e usar o serviço de saúde. Até expressões que denotam isso caíram no uso, como fazer “turismo de saúde”.

“4.000 assassinos e estupradores estrangeiros e não podemos pô-los para fora”, diz o Daily Mail

Tablóides como o Daily Mail por anos deram muito mais destaques incidentes envolvendo imigrantes. Episódios marcantes foram raptados para a agenda contra a imigração, como o assassinato da menina Alice Gross em Ealing, cometido por um imigrante checo que trabalhava como ajudante de construção ou um grupo de taxistas de Rotterham que abusavam de garotas, eles eram de origem paquistanesa.

Como vem documentando o jornalista do Guardian, John Harris, a retórica do medo e do ódio aos imigrantes é complementada por narrativas de um país imperial mítico, autossuficiente e que foi degradado pela década de imigração em massa.

5. A chamada “Windrush Generation” e a Grenfell Tower

Windrush era o nome do navio que trouxe imigrantes de ex-colônias britânicas no Caribe e no sudeste asiático. Depois de décadas a morar e trabalhar regularmente no país, um erro de registro do Home Office (departamento de segurança interna) fez com que alguns desses imigrantes começaram a receber cartas de deportação. Famílias foram arrasadas e vidas destruídas.

A Grenfell Tower abrigava muitos imigrantes e sempre foi vista com hostilidade por ficar numa zona nobre da capital inglesa

Aqueles com câncer não puderam se tratar, outros com filhos crescidos tiveram de se separar; pessoas idosas tiveram que retornar a países dos quais eles não têm a menor recordação porque saíram de lá crianças.

Em um dos casos, de um homem que teve a sorte de ter o seu caso considerado, mas ele teve de provar que morou no Reino Unido cada um dos cinquenta anos de sua permanência. Outra mulher, com problema de saúde sério, faleceu logo após de retornar ao seu país de origem.

Seja pela ilegalidade dos atos ou pelo exagero dessas políticas, o consenso é que elas não passam de um tiro no pé pois o país precisa cada vez mais de imigrantes.

Veremos como ficará essa retórica anti-imigratória após o Brexit, já que os níumeros de imigrantes da União Europeia não param de cair, abrindo espaço para novas chegadas de Índia, Paquistão e América Latina.

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