A cidade de Turim, na Itália, tem vivido semanas decisivas sobre o que fazer em relação ao seu futuro trem de alta velocidade (TAV). O projeto ligará a cidade, na região do Piemonte, à cidade de Lyon, na França, do outro lado dos Alpes.

De uma parte, o rumo da obra já foi decidido há alguns anos. A parte que cabe aos franceses no projeto está bem avançada. A perfuração de um túnel sob os Alpes já foi feita do lado da França, a totalizar 15% do total e 71% da parte francesa.

O trecho italiano do projeto, no entanto, é motivo de disputas políticas entre os dois partidos que estão no poder, eleitos sob uma plataforma populista de grandes obras.

Desde que a coalizão de partidos de direita, extrema-direita e centro-direita, Forza Italia, Lega, e Movimento Cinco Estrelas foi estabelecida, esta com um discurso de retomada da economia, há uma disputa sobre os custos bilionários do projeto e o real custo-benefício para os italianos.

Trecho previsto do TAV de Turim. Crédito: RAI

Em lados opostos, o Movimento Cinco Estrelas, cujo líder Luigi di Maio se opõe ao projeto, alega que aos custos exorbitantes e retorno duvidoso já fariam o projeto ser inviável. Essa posição é dos outros partidos de centro-esquerda e centro, como o PD, Partido Democrático.

Já Matteo Salvini, da Lega, é um entusiasta que posta diariamente conteúdo em redes sociais sobre os prospectos da obra. A sua retórica é de “vamos fazer” e “a obra pertence aos piemonteses”, embora ele seja Ministro do Interior e sem poder direto sobre o orçamento ou sobre os trabalhos.

Para quebrar o impasse, foi encomendado recentemente um estudo de custo-benefício para a obra. O estudo revelou que a obra é deficitária em pelo menos 9 milhões de Euros, mas detalhes técnicos do projeto ainda não foram revelados.

Pelos dados preliminares, o estudo diz ser mais lucrativo cancelar a obra e devolver os recursos à União Europeia. O ganho ambiental e para passageiros é grande. Ambos os lados contestam os valores que seriam devolvidos e os que teriam de ser pagos por contratos já firmados.

O resto da tratativa demandaria uma decisão política. A Itália registrou no começo de 2019 uma ligeira recessão (ao contrário dos outros países do sul que crescem) e pausar o projeto poderia ajudar as finanças do país. No final de 2018, o “budget” italiano sofreu críticas pela UE, que vê uma tentativa populista de inflar gastos com medidas como o “‘reddito di cittadinanza” ou uma renda mínima para desempregados e famílias carentes.

Matteo Salvini visita o canteiro do TAV. Fonte: Tusciaweb

Nas eleições locais de dezembro de 2018, a Lega de Salvini de dezembro já havia conseguido uma votação expressiva em Abruzzo, região que havia votado pelo Cinco Estrelas antes.

O TAV do Piemonte tem sido visto como uma alternativa para reavivar a economia dessa região italiana, historicamente isolada do resto do país. Embora seja berço da FIAT e de outras manufaturas de sucesso, ela também é vista como o “cinturão da ferrugem” da Itália. A dependência da FIAT já não é suficiente para gerar os empregos e crescimento necessário e reduzir o desemprego.

O TAV poderia fazer com que mais mercadorias pudessem entrar e sair do país e aumentar o comércio com a França e outros países.

Ganhe o peso do custo ou o seu benefício, o TAV tem servido bem à propaganda populista da Lega e dos promotores de uma nova Itália a partir de grandes obras.

A estratégia não é nova e já baseou a retórica do ditador Mussolini no passado. Porém, a Itália não possuía a dívida de hoje e nem os compromissos assumidos com a União Europeia. A ver como o país conseguirá conciliar a promessa do trem e reequilibrar as suas contas.

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