Londres tem perdido cada dia mais a imagem de uma cidade segura nos padrões europeus. Muito por causa da alta nos crimes com arma branca.

Embora esfaqueamentos sempre tenham sido um dos crimes mais comuns na capital inglesa, esse início de 2019 está sendo marcado por uma sucessão de episódios letais.

É um explosão de casos, muitos dos quais têm acontecido em lugares públicos, incluindo nas estações de metrô e pontos de ônibus. Essa banalização da violência dá-se após anos de queda recorde nos índices.

Desde o final de fevereiro de 2019, a imprensa tem publicado uma avalanche de críticas contra a polícia metropolitana e, sobretudo, contra os cortes do governo.

Mas se os crimes acontecem desde meados de 2018, por que só agora os crimes ganharam as manchetes dos jornais e a opinião pública?

Jodie Chesney (Facebook)

Se observarmos o perfil das vítimas desde outubro de 2018, veremos que a grande parte delas é de britânicos não brancos. Filhos e netos de imigrantes da Índia, África e Ásia são a grande a maioria. A primeira vítima branca foi Jodie Chesney, de 17 anos, esfaqueada em Barking no início de março. Um adolescente de 15 anos foi preso como suspeito de ser autor do crime.

De 15 vítimas adolescentes em 2019, três foram cidadãos brancos, contra 12 vítimas de outros perfis demográficos. Em 2018 esse número foi de 76 pessoas, sendo 23 crianças.

Jovens assassinados entre 2018 e 2019 (Press Association/Evening Standard)

A imprensa britânica não costuma reportar episódios de violência com muita frequência. Ao contrário, o noticiário de crime fica restrito a programas de rádio ou a alguns sites e mídias sociais, a chamada ‘mídia local’ e também nas redes sociais.

O fato é que o partido Conservador vem ao longo dos anos enxugando a quantidade de policiais em patrulha. Quase não vê-se mais esse tipo de policiamento ostensivo nos bairros. Muitos queixam-se de que a polícia não vai ao local, mesmo quando chamada.

A Primeira-Ministra Theresa May chegou na semana passa a sugerir que não haveria conexão entre a menor quantidade de policiais nas ruas e a alta no crime. Essa comparação foi desmentida um dia depois por vários especialistas.

Do lado da direita, o partido Trabalhista também sofreu críticas, especialmente direcionadas ao prefeito Sadiq Khan, que resolveu sair de férias em meio à crise. O fato não foi perdoado pelos tablóides.

O que falta é uma autocrítica sobre a seletividade dessa indignação, que vem e vai, especialmente quando todos os olhos estão voltados para o Brexit.

Por exemplo, em 31 de dezembro de 2018, quatro jovens negros foram mortos por esfaqueamento, também no leste da cidade. Comparativamente, a cobertura jornalística desses casos foi bem inferior se olharmos para o caso de Chesney. O caso dela foi resolvido em alguns dias, enquanto que o assassinato dos jovens (alguns dos acusados fugiram para fora do país) continua impunes.

Kwasi Anim-Boadu, 20 anos, assassinado em abril de 2018

Há muito discute-se o caráter racial e econômico do crime na capital, muito provocado por disputa de gangs e do tráfico local de drogas. O colunista conservador Peter Hitchens atribui ao uso indiscriminado da maconha. O deputado trabalhista negro David Lammy chegou a dizer que o Reino Unido é o “mercado de drogas” da Europa.

É também conhecida a pouca representatividade de negros e outras minorias étnicas no corpo policial, o que reforça a tese da seletividade na apuração, abordagem e até no julgamento. Quando há fatalidades, o número de vítimas negras é muito maior, como no caso de Stephen Lawrence.

Ainda tem o lado da imprensa. A cobertura da epidemia de crimes aumentou após o caso Chesney, mas outros casos vêm acontecido dia após dia e continuam no anonimato.

Nesta semana o governo publicou uma análise na qual argumenta contra as exclusões de jovens vistos como potenciais agressores das salas de aula. Essa media havia sido sugerida para diminuir o risco de conflito e contágio de gangs em colégios.

De fato, seria mais uma medida que poderia aumentar a exclusão baseada em critérios raciais e assim sustentar a indiferença da sociedade sobre menores infratores que vêm de famílias já perseguidas pelo estereótipo da violência que existe em relação às minorias.

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