Talvez a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos tenham sido a maior exposição midiática do Brasil na história recente.

Nota-se no YouTube uma coleção de séries e documentários produzidos entre 2014 e 2016 em que as contradições de um país são completamente expostas. Repórteres questionam por que uma nação em desenvolvimento resolveu gastar bilhões em instalações esportivas, que seriam (e hoje são) sub-utilizadas. Mesmo assim, as denúncias de água contaminada que “intoxicariam os atletas” ou dos “assaltos a ônibus de delegações internacionais” não se materializaram e o evento acabou transcorrendo relativamente bem.

A Copa do Mundo e as Olimpíadas trouxeram apenas um tipo de representação midiática sobre o Brasil: Aquelas que convinham aos grandes grupos midiáticos internacionais. Foto: Reprodução YouTube

Desde então, parece que o Brasil ganhou mais destaque no noticiário diário do mundo, especialmente nos EUA e Reino Unido. Do assassinato de Marielle Franco ao desastre com a barragem de Brumadinho, passando pela eleição de Jair Bolsonaro, os fatos começaram a ganhar mais destaque e accountability nos países anglófonos e consequentemente no mundo todo.

Durante a recente visita de Bolsonaro aos EUA, por exemplo, ficou claro que a mídia global, capitaneada pelos americanos, se interessa pelo Brasil, nem que seja para arbitrar sobre a qualidade da sua democracia e, neste caso, o preparo do seu líder. Tal escrutínio não acontece com todos os países. Sendo Emanuel Macron um novato na política, ninguém havia se perguntado se ele daria um golpe na França ou se o país romperia com a democracia. Mas fizeram esse tipo de pergunta ao Brasil. Será isso bom ou ruim?

Como visto durante o impeachment de Dilma Rousseff, nos desastres naturais de Mariana e de Brumadinho e em esporádicos episódios de violência, é difícil para o País vender a sua história. E mesmo países ditos como neutros, como a China, ecoam claramente o que a tal mídia global diz diariamente, sem chance de que se possa construir outra narrativa. Grande parte da imagem do Brasil como o País do Futebol, de gente simpática e aberta, nasceu numa época pré-internet. Mas será possível hoje em dia alguém capitanear uma mudança?

Não precisava ser assim. Todo o país tem a sua agenda negativa diariamente. A Espanha tem seus conflitos separatistas, a Hungria, Turquia e Egito vivem com seus governos semi-ditatoriais. A Inglaterra dá um show de racismo e xenofobia a cada debate sobre o Brexit; os próprios EUA, que têm o Trump, que, republicano, escapa muito bem do rótulo de extrema-direita.

O destaque positivo de Portugal na imprensa brasileira e internacional virou rotina graças a investimentos do país em sua marca. A falta de um jornalismo crítico sobre o que se passa mo exterior também é um dos motivos do tom laudatório, como discutido aqui.

Enquanto Portugal viu um renascimento de sua imagem no exterior, muito graças à indústria do turismo e investimento em publicidade, o Brasil teve seu potencial diminuído embora receba mais atenção: Políticos sem treinamento para a comunicação pública, meios de comunicação nacionais sem o devido cuidado com o impacto de suas histórias (a história da carne contaminada que derrubou as exportações).

No caso do Brasil, o país ora é o campeão das belezas naturais e excepcionalidade carismática, ora é o monstro violento dos 60.000 assassinatos. Tanto para o turismo, quanto para a política, ambas as narrativas concorrem, sem nenhuma delas realmente ganhar substância e ser chancelada por formadores de opinião internacionais, que no geral desconhecem a realidade das ruas e do povo.

Vejamos como funciona em outros países.

Quando acessamos a bbc.com de fora do Reino Unido, não é possível ver qualquer manchete que seja negativa ao país.

A BBC, British Broadcasting Corporation, é o melhor exemplo de uma grande organização midiática dedicada a vender um país: A Grã Bretanha. “Vender”, é claro, não significa o óbvio da narrativa turística e dos méritos nacionais. Vender é falar sobre, é narrar, é engajar o espectador, é mostrar como a vida acontece naquele país. É ser uma espécie de embaixadora. Assim como a Deutsche Welle, alemã, a NHK japonesa, a Euronews na Europa.

O caso da BBC é excepcional porque esta consegue uma penetração em outros países, que talvez só os EUA consigam com sua indústria cinematográfica e musical. Os americanos possuem uma penetração vertical forte, em que artistas, jornalistas, e personalidades carregam aspectos do país consigo e influenciam pessoas com o seu gosto e acabam adotando o jeito americano de ser e narrar a realidade.

Apenas quando acessamos de dentro do país conseguimos ter uma noção do que está realmente acontecendo.

Embora a popularidade do conteúdo britânico seja menor em escala global, a BBC transmite mais alinhamento com os aspectos ideológicos do governo britânico e acaba fazendo um trabalho que aumenta o softpower desse país. Por exemplo, a ideia de “keep calm and carry on” foi por muitos anos promovido como o slogan da realeza britânica, mas são os documentários da BBC, seus apresentadores, seus sites de notícias que fazem que confiemos no que vem de lá.

A BBC, por meio de seus sites e programas de TV, geralmente cobre aspectos em que a Grã Bretanha está avançada mas que em outros países nem tanto. É comum achar matérias ditas progressistas, como a questão do aborto, da comunidade GLBT, das pesquisas científicas, opiniões de especialistas ou artistas que, de alguma forma, interpretam o mundo com credibilidade.

Os canais e sites da BBC influenciam não só por meio de assuntos e pautas do momento, mas o faz usando línguas locais. Neste caso, criando um canal de comunicação exclusivo com espectadores brasileiros ou argentinos ou paquistaneses, quando esquecemos que é uma emissora do Reino Unido e não uma entidade nacional interessada na comunicação como um direito.

O Daily Mail é um dos únicos veículos online a noticiar crime na Inglaterra.

Essa estratégia cria respeito para a nação e não apenas para uma emissora. É para isso que os contribuintes (e todos que possuem um aparelho de televisão) pagam uma taxa anual no Reino Unido. Para gerar não apenas um serviço descompromissado, mas um serviço que gere um lucro simbólico à sociedade que o financia.

Enquanto outros países têm emissoras públicas que ficam restritas a cobrir os bastidores do poder de uma maneira óbvia e desinteressante, como é o caso da EBC no Brasil, a BBC traz conteúdo de qualidade, mas que é direcionado para atender a sua missão patriótica. Há quem diga que a Globo fez o mesmo com as suas novelas, ao popularizar imagens do Brasil mundo afora, mas é difícil acreditar que isso trouxe credibilidade ao país e não apenas beneficiou a empresa como uma grande exportadora de telenovelas.

Outro exemplo desse patriotismo midiático funcionando acontece quando qualquer um tenta acessar o site da BBC News de dentro e de fora do Reino Unido. Eu já experimentei várias vezes e o resultado é ver matérias cobrindo aspectos ditos negativos da Grã Bretanha na sua versão local (Brexit, violência, problemas sociais) e assuntos de outros países (ou neutros se cobrindo o Reino Unido) no seu correspondente global. A empresa diz que os contribuintes britânicos não financiam as operações estrangeiras da organização, daí a indisponibilidade desse conteúdo, mas é difícil acreditar.

Voltando ao caso do Brasil (ou de qualquer outro que conta com pouco soft power no mundo desenvolvido), o país perde muito por não ter uma BBC porque, por um lado, se não consegue controlar o que é dito sobre si, pode muito menos influenciar indiretamente audiências em outros lugares do planeta.

Assim, o país perde a chance de desfazer estereótipos que não fazem nenhum bem aos brasileiros no exterior. Também não gera outras imagens da sua própria realidade, aquelas que os brasileiros escolhem e se orgulham de ter mundo à fora. São sempre narrados e não os narradores.

Os escândalos de corrupção, os desastres ecológicos e a violência contra comunidades indígenas fazem parte do Brasil, assim como aquilo que também os brasileiros querem mostrar. Todos os povos deveriam ter direito a serem reconhecidos como cidadãos com gostos e culturas, independente dos problemas sociais que enfrentam.

Na era em que praticamente tudo é midiatizado, o cenário é de turismo de massa a se transformar e se especializar, e a concorrência pela atenção cada vez mais difícil de ser conquistada. Por que outros países, como o Brasil, não copiam o modelo da BBC? Talvez a resposta passe pela falta de recursos ou pela falta de visão. No caso do país sul-americano, o conceito de comunicação como ferramenta de soft-power ainda não é, de fato, uma prioridade. Especialmente quando uma reforma da Previdência mal consegue ser aprovada, quem dirá outros projetos não vistos como essenciais.

Seja como for, deveria ser prioridade do Estado garantir esse direito à representação internacional digna. Da mesma forma, nenhum país deveria esperar que os outros contem a sua história.

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