Participei do interessante Brasil Seminar promovido pela universidade Loughborough London. O tema foi pensar Paulo Freire no campo da comunicação alternativa no Brasil contemporâneo.

Acadêmicos e ativistas de Brasil, Inglaterra, Portugal e outros países uniram-se para discutir o que ainda nos leva ao Patrono da Educação Brasileira décadas depois do lançamento de A Pedagogia do Oprimido, o clássico da educação pela justiça social.

O “elefante na sala” era o governo Bolsonaro e os ataques que Freire vêm sofrendo desde então. No entanto, havia muito mais a ser dito e felizmente foi essa a direção tomada. Não é a ideia transmitir todo o seminário, mas algumas questões são pertinentes (colocadas ou repetidas por mim a partir do que ouvi durante o evento) e merecem ser repetidas aqui nesse espaço.

Primeiro, qual a importância de vários conceitos de Freire e a sua aplicabilidade na atualidade. Quem é o oprimido? Quem é o opressor? O que é opressão? Embora muita gente evite chegar a esse ponto de discussão epistemológica (até um pouco óbvia), essas eram as perguntas que acabavam nas entrelinhas de muitos debates. Interessante foi um comentário sobre o contrário do opressor e a sua relação com a liberdade. Afinal, o contrário de ser oprimido não é bem ser o opressor, mas o ser livre. E é isso que o chamado “Método Paulo Freire” busca. Por que, então, o foco no opressor?

Segundo, quais são os outros conceitos que ainda aparecem em Freire e que são sub-utilizados? Ouvi muito sobre a “teoria da ação”, segundo a qual cabe ao agente de mudança desenvolver métodos e se “engajar” com outros atores sociais para provocar a mudança. Qual seria o exemplo maior dessa ação que vem de baixo pra cima? Muitos estudos ainda não abordam exemplos dessa ação e sim sua expectativa de publicidade ou participação, especialmente tratando-se de mídia.

Terceiro, quais são os limites de Paulo Freire? Os ataques à sua obra parecem confirmar a relevância do pensador para os tempos atuais. Mas qual seria o momento de avançar quando menciona-se uma obra que, afinal, foi escrita há quarenta anos? Como contextualizar Freire dentro de um contexto no qual a ação esperada de certos atores sociais se dá dentro da Internet e por isso é limitada pela própria? Como despertar uma consciência de que se deve ir além desses meios de comunicação? Como movimentos sociais acabaram vitima desse pensamento e a que ponto deveriam retornar a conceitos como o de “diálogo”?

Essas foram algumas das perguntas que surgiram e ainda assim aparecem aqui de forma muito reduzida. A discussão continua e tenho certeza de que o interesse pela obra de Freire permanecerá. Não apenas pela originalidade desses conceitos e popularidade no mundo todo, mas pela necessidade de se retornar a questões essenciais de uma convivência democrática.

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