Com a política paralisada por causa das férias do verão, pela troca de líder no partido Conservador e impasse sobre o Brexit, resta aos jornalistas britânicos investir em nuances da vida privada. E os políticos não deixam por menos e

Por exemplo, Michael Gove, um forte candidato à liderança do Partido Conservador foi criticado por ter admitido o uso de cocaína. O novato Rory Stewart foi ridicularizado pelo boato de que ele teria trabalhado como espião. Sem falar nas dezenas de políticos já banidos por terem algo tido como inaceitável nas redes sociais ou pegos em alguma situação embaraçosa (por ex. sexting).

A deputada conservadora Andrea Leadsom, que disse que Theresa May devia ser infeliz por não poder ter filhos.

A briga de Boris Johnson com a namorada foi explorada ao máximo por seus opositores, mas ela foi só mais um fato num cardápio de escândalos que atingem os conservadores há tempos.

Nos últimos anos, a biografia de um dos membros da Câmara dos Lords já trazia o boato de que ex-Primeiro-Ministro David Cameron havia introduzido o seu pênis em uma cabeça de porco durante uma festa na universidade.

Theresa May, apesar de pouco afeita à deixar a imprensa dentro de casa, ensaiou passos de dança em conferências para desfazer a imagem de “robô” que a imprensa atribui-lhe. A candidata à liderança do Partido Conservador, agora desclassificada, Andrea Leadsom, chegou a dizer que a agora ex-Primeira-Ministra deveria ser triste por não ter tido filhos.

Esta nova dimensão do privado na política britânica é um pouco diferente da lógica do “escândalo”, outra marca registrada nessas ilhas.

O “escândalo” sempre foi relacionado a episódios envolvendo sexo ou irregularidades nas despesas pessoais de parlamentares, como conta a autora Anna Clark em seu livro “Scandal: The Sexual Politics of the British Constitution”.

Keith Vaz, parlamentar inglês envolvido em escândalo de 2016.

Em 2009, fraudes no reembolso de despesas fizeram um grande número de parlamentares renunciar em massa. Em 2016, o jornal Sunday Mirror denunciou o deputado pelo Labour, Keith Vaz, por contratar garotos de programa. Na época, jornalistas armaram uma câmera e contrataram dois rapazes do leste europeu para flagrá-lo levando prostitutos para levá-los ao seu apartamento no nordeste de Londres.

Essa sempre foi a lógica do escândalo na política britânica: controvertido, sexual, mas eventual.

O atual contexto segue a lógica do escândalo permanente. Não satisfeita com ganhos eventuais, a imprensa estaria mais feliz em dar espaço permanente a declarações controvertidas, do que em reportar o cotidiano burocrático e os debates sem fim que fazem o dia a dia de toda democracia. Um dos beneficiados desse “reality show” é o fundador do Brexit Party, Nigel Farage. Ele fez sua fama com declarações bombásticas, muito ancoradas em notícias falsas.

Em coluna recente, a jornalista Helen Lewis, da revista esquerdista The Spectator, reflete sobre a crise do jornalismo político por aqui. Ela afirmou que os jornalistas políticos do seu país são os mais inclinados a viverem em bolhas do Twitter e a privilegiar politicos que respondem rápido a pedidos de entrevistas. Aqueles que querem sair na mídia devem ser acessíveis e terem opinião diariamente publicada na plataforma social.

Lewis cita o exemplo do conservador Jacob Rees-Moggs, que segundo ela, “não existiria se ele não atendesse a jornalistas o tempo todo”. Moggs é conhecido por ter cinco filhos e se vestir à maneira vitoriana. Mora próximo a Westminster onde é frequentemente visto recebendo jornalistas e misturando política com moral vitoriana.

O problema, diz Peter Hitchens, colunista do tablóide Daily Mail, não está tanto em misturar política e vida pessoal, mas em aceitar os interesses escusos que a política do escândalo carrega. Até que ponto esses assuntos estão desviando a opinião pública para que aceite o que os poderosos estão propondo?

Na medida em que existe um Boris Johnson, favorito justamente pela sua capacidade de entreter um eleitorado (que sem ele poderia votar num Farage) o público acaba longe dos problemas reais como desemprego e recessão, e embarca na lógica do espectador de um show permanente de bizarrices e declarações sem sentido. A situação no Reino Unido acaba sendo parecida com a do outro lado do Atlântico.

Enquanto isso no Brasil

Com muitos áudios, boatos e pouca política, a situação inglesa parece-se com a brasileira. Em ambas a vida privada assumiu uma posição de destaque onde deveria haver questões sensíveis para a política. A promoção de áudios, escutas e materiais usados em episódios como a conversa do Michel Temer com o dono da JBS, Joesley Batista; ou a conversa telefônica da Dilma Rousseff com o Lula, são exemplos de materiais divulgados à exaustão em nome do suposto “interesse público”.

Michel Temer e Aécio Neves

Mas qual a ética que guia esse investimento na vida das pessoas, nas suas conversas e hábitos pessoais, mesmo sendo esses pessoas notórias?

No caso inglês, deveríamos aceitar vizinhos que escutam atrás das paredes e gravam o que é dito dentro da casa de alguém, apenas para divulgar a imprensa? No caso brasileiro, é ético invadir celulares e aplicativos de mensagem para roubar registros de conversas com o mesmo propósito?

Por outro lado, até que ponto a imprensa virou um órgão que apenas ecoa o que acontece nas redes sociais, não importando os meios ilegítimos de espionagem digital? Até que ponto a imprensa virou apenas um veículo sobre vida pessoal?

São perguntas que se aplicam nos dois países. Aqui em Londres, lugar em que a vida pessoal sempre veio primeiro e jornais são instituições que ainda respeitam embargos judiciais quase todos os dias, a erosão de uma agenda em comum em tempos de Brexit é a sequela mais visível desse desespero por novos fatos pessoais.

No Brasil, o direito do cidadão à privacidade é relativizado por editores de jornais. Vivendo em crise de administração, de relevância e de lucro, os “formadores de opinião” naturalmente querem audiência, e por isso o “interesse público” acaba tendo limites bem elásticos.

Neste caso, não só vazam-se materiais que envolvem contratos e alianças entre políticos, mas também conversas que qualquer cidadão tem o direito de preservar para si. Esses mesmos jornais se recusam a publicar informações de bastidores dos seus próprios meios de comunicação por acharam-se acima do direito que negam aos demais integrantes da cena política.

Vida privada na política: Qual o futuro?

Jogando o jogo da política, estariam os agentes públicos dispostos a negociar a sua própria vida para ganhar votos e atenção, num mundo dominado pelas redes sociais? Alguma trégua é possível?

A grande popularidade de Boris Johnson, dizem vários comentaristas políticos ingleses, decorre do fato de ele ter sempre representado um populismo leve e até bem vindo num cenário de políticos muito sérios e conservadores. Num aspecto positivo, ele poderia salvar o Partido Conversador da extrema-direita, representada por Farage e seu popular partido Brexit.

No Brasil, por outro lado, as aventuras do clã Bolsonaro na política acabaram por distrair os brasileiros de questões essenciais como violência, desemprego e o futuro do país. Seja por soluções inviáveis apresentadas até aqui pelo novo governo ou pelo espetáculo de frases sem sentido que acabam sendo repercutidas a todo instante nas capas dos portais de notícias. Não há espaço o que importa.

Talvez a principal diferença entre os dois contextos, Brasil e Inglaterra, além de serem países com tradições políticas radicalmente diferentes, é o tempo que cada nação consegue gastar com disputas que não avançam a vida das pessoas, nem muito menos a democracia.

Enquanto a economia britânica desacelera, o país ainda sobrevive relativamente bem à extrema incerteza. No Brasil, depois dos anos de crise econômica, dificilmente o país pode dedicar-se a distrações sobre a vida dos políticos e conversas de promotores públicos (eles também com direito à vida privada, não esqueçamos disso, ou alguém acredita que um juiz ou oficial público não terá mais conversas em Whats App ou receberá visitas em gabinetes?)

Essa insistência da imprensa em reportar cada mínimo detalhe do que disse esse ou outro ator político ou em sucumbir a um safari digital por cliques, dificilmente ajudará ao eleitor que quer retomar a confiança na política. Sem falar no permanente bloqueio a debates essenciais.

Em resumo, o reality show da política acaba sendo o reflexo de um vácuo – aqui de política estratégica internacional e no Brasil de um líder que unifique as forças políticas em um único projeto. Como discutido aqui, o foco na vida privada serve como uma distração perigosa para problemas que agravam-se em tempos de crise.

Anúncios

Um comentário em “A política britânica como um reality show (assim como no Brasil)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.