Kathy é uma senhora de cerca de 60 anos de idade que senta-se quase todos os dias no café Pret-A-Manger, que fica próximo à National Gallery, no centro de Londres.

Ela é uma das mais de 170 mil pessoas sem-teto no país. A maior parte habita na cidade e se concentra em zonas turísticas como o Convent Garden e o leste. Apesar de serem cada vez mais indesejados.

Cafés como o Pret são conhecidos por abrigarem essas pessoas de maneira involuntária, mas pelo menos dão-lhe uma capa de invisibilidade. Esses estabelecimentos fornecem bebida e comida de graça para alguns sem-tetos que ficam próximos. Este café em especial, na Trafalgar Square, atende a um número enorme todos os dias.

Nos últimos cinco anos, o número de sem-teto no Reino Unido mais que dobrou. Em Londres, ele é quase três vezes o registrado nas outras grandes cidades inglesas. Em 2016, a capital inglesa reunia cerca de 23% do total de pessoas sem residência no país. Esse percentual é maior do que outras metrópoles que vivem uma crise parecida, como a cidade de São Paulo (16 mil indivíduos sem-teto em 2017).  No Reino Unido, sem-teto é também aquele cidadão sem residência fixa ou que é  itinerante.

Segundo dados de ONGs do setor, assim como a Kathy, 15% dos sem-tetos na cidade são mulheres. 14% deles são negros. Essa é uma população com até 17 vezes mais chance de envolver-se em um crime ou ocorrência policial.

Epidemia

O fenômeno chegou a ser considerado uma epidemia segundo um relatório publicado em janeiro de 2018 pela London Assembly.

Críticos acusam governos conservadores por conta de seus cortes no orçamento. Outros culpam o prefeito do partido Labour, Sadiq Khan, por não conseguir diminuir o índice como prometido. Na verdade, foi no governo Boris Johnson que o número de sem-tetos quase dobrou.

Embora Johnson tenha pessoalmente condenado ações restritivas e punitivas contra essa população, ele também havia prometido acabar com o problema em 2012, como mostra essa matéria do HuffPost. Johnson será provavelmente eleito Primeiro Ministro em breve.

Solidariedade à inglesa

Por outro lado, projetos para aliviar o problema não faltam.

Em 1991, foi criada a revista Big Issue, que moradores de rua e pessoas marginalizadas podem comprar por um preço menor e revender pelas ruas. Apenas no ano passado eram 170 grandes projetos de organizações civis trabalhando com realocação de pessoas, acomodação em abrigos, reinserção social e outras emergências.

Mulher vende Big Issue
Mulher vende exemplar da Big Issue. Crédito: Flickr HotpixUK

No nível local, a visão da maioria é que não está se tendo muito sucesso em políticas e daí o surgimento de ações voluntárias a cada dia. Sub-prefeitos ou demoram a tomar alguma ação, ou muitas vezes vão na contra-mão do problema, aprovando medidas que deixam a vida dos que moram na rua ainda mais difícil.

Por exemplo, vários bairros (boroughs) do centro turístico da cidade, como em Westminster, já instalaram barreiras em bancos públicos, cercas ou espetos em espaços que serviriam de cama para essas pessoas durante à noite.

Essas intervenções urbanísticas contra moradores de rua são denunciadas com frequência por jornalistas que cobrem o problema, mas acabam sendo visto positivamente pela maioria da população.

Na mídia, da mesma forma, nem sempre sem-tetos contam com a simpatia geral. Muitas matérias e documentários da BBC têm mostrado o drama de quem perdeu a casa por brigas familiares ou pelo vício em drogas, as causas mais frequentes do problema.

Em 2016, um relatório da ONG Shelter sugeriu que a “epidemia” de sem-tetos tem mais a ver com a gentrificação e aumento dos preços das casas, um problema que atinge também a classe média. Daí a falta de solidariedade num nível mais individual, já que boa parte da população economicamente ativa enfrenta algum tipo de problema ligado a habitação.

No desespero, muitas pessoas recorrem a medidas extremas para conseguir moradia e evitar ir para as ruas. Já fala-se até de prostituição para conseguir-se um lugar para ficar. Convites assim em sites de anúncios (como o Craiglist) não faltam. É o chamado ‘sex rent’.

É bom lembrar que grande parte da campanha pelo Brexit foi focada nos sem-tetos nas ruas de Londres. Partidos populistas como o UKIP salientavam que muito do problema era causado por imigrantes da União Europeia vindo tentar a vida em Londres.

Ataques de toda parte

No começo deste ano, a deputada conservadora Kathryn Kelloway, de Cardiff, no País de Gales, postou uma selfie no Twitter ao lado das barracas montadas por sem-tetos bem na rua principal da cidade galesa. Segundo ela, eles estavam bloqueado o comércio e ela então pedia que a prefeitura retirasse com urgência os moradores de rua.

Com a polêmica, considerada classista e fora da realidade, ela foi suspensa e bastante criticada na plataforma social.

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Andy, um rapaz sem-teto que habita o centro de Cardiff, no País de Gales. Crédito: Invisible People/YouTube

Um dos sem-tetos ali presentes era um rapaz de 21 anos chamado Andy, que saiu de uma família problemática com pais alcoólicos e foi morar na rua. Ele deu um depoimento comovente ao canal “Invisible People” contando da sua tragédia pessoal. Disse que cospem e insultam-o todos os dias. Enquanto que os bem intencionados dão uma “avalanche” de junk food, mas não há água ou dinheiro, nem banheiros disponíveis. Essenciais para que ele pudesse ter um pouco de dignidade.

Quando encontrei Kathy no Pret-A-Manger, ela carregava todas as suas coisas junto com ela. Eram duas malas enormes. Um desapercebido a confundiria com um das centenas de viajantes que passam pelo centro de Londres todos os dias. Mas ali estavam todos os seus pertences, como ela me confirmou.

Até falou-se em 2018 sobre outra epidemia: A de se esconder o presença dos sem-tetos em casas postiças ou de fachada. Isso se referia ao fato de a polícia municipal obrigar qualquer um sentado por muito tempo nas fachadas de teatros ou praças a sair, especialmente se forem pontos turísticos. Assim, sem-tetos acabam por aparecer menos nas estatísticas.

Casos abundam nos documentários e reportagens, mas dificilmente comovem os ingleses para além da ação no mundo das ONGs.  Duas organizações poderosas, a Shelter e a Crisis, trabalham extensivamente em produzir material sobre a crise, mas críticos dizem que falta apoio político para que o problema seja vencido para além dos preconceitos.

Porto seguro

Enquanto isso, o café dos sem-teto acaba sendo uma espécie de porto seguro.

É neles que pessoas como Kathy ficam sentadas por horas, muitas vezes sem consumir absolutamente nada e apenas para escapar do frio e da violência. Em 2008, a própria rede de lanchonetes lançou o programa Rising Star, no qual treina moradores de rua para trabalharem em uma de suas lojas. Segundo o site do programa, eles empregam por ano cerca de 40 pessoas nesse esquema.

Seja um número baixo ou o que é possível diante da complexidade do tema, o Prêt tem sido um alívio para aqueles que passam. É ali no café dos sem-teto onde pessoas de várias classes sociais se encontram. Para os sem-teto, é onde eles podem ficar sem ser perturbados ou ameaçados, seja por transeuntes ou, como vimos, pela própria mídia.

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