Uma sucessão de fatos que ajuda a entender a dita “crise de antissemitismo” do partido trabalhista inglês, que se arrasta desde 2018. Há muito vem-se alegando indiferença em relação aos casos de bullying direcionados aos membros do partido que são judeus.

Além de ser um tradicional partido político fundado em 1900, o “Labour” é importante atualmente porque carrega a única força política capaz de fazer frente ao Brexit e ao caos parlamentar que o processo detonou, muito visto como culpa dos conservadores.

A crise é também um forte teste para a liderança de Jeremy Corbyn. Pela primeira vez o partido é liderado por um chamado “marxista” aberto, o que tem gerado suspeitas desde a sua eleição em 2015.

Corbyn é conhecido por apoiar causas polêmicas e grupos como o Hamas, classificado oficialmente como terrorista e que não reconhece a existência do Estado de Israel.

O blog Lá Fora reuniu uma pequena linha do tempo de notícias que ajudam a explicar como o Labour chegou a esse ponto. Não são as únicas causas, mas é um guia para entender como o partido encontra-se mais uma vez encurralado, especialmente após a veiculação do programa Panorama, da BBC, no começo de julho.

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Março, 2018 – Mural “antissemita” aprovado por Jeremy Corbyn

Mesmo tendo recebido várias denúncias de casos de antissemitismo, Jeremy Corbyn elogia um mural pintado no leste de Londres que mostra um grupo de banqueiros de nariz protuberante sentados numa mesa com dinheiro. Corbyn não viu nada de estranho mas teve de enfrentar a fúria de algumas organizações judaicas. Anteriormente, Corbyn também já havia elogiado um livro com temática antissemita.

 

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Luciana Berger – Crédito: Flickr Policy Exchange

Agosto,2018 – Deputada judia escoltada durante a conferência do Labour 

Depois de meses de ameaças de morte e insultos, a deputada Luciana Berger, de Liverpool, tem de ser acompanhada por um grupo de guarda-costas pela conferência do partido. Dois meses depois, Berger seria alvo de um processo de “recall” ou “deseleição”, no qual membros da sua constituência votariam pela continuação ou interrupção do seu mandato. Grávida, Berger foi submetida a um grande estresse, até que a opinião pública desfavorável fez com que a votação fosse cancelada. No início de 2019, Berger deixaria o Labour para fundar junto com outros sete membros do parlamento o Independent Group, chamado de Change UK hoje.

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Dame Margaret Hodge

Setembro, 2018 – Deputada judia suspensa e investigada por protestar contra “antissemitismo” 

Após muita controvérsia, a deputada Margaret Hodge sofre processo indisciplinar por se posicionar contra a liderança partido, a qual acusa de persegui-la por ser judia. Após intenso debate nos meios de comunicação e uma avalanche de críticas, Hodge continuou no partido, mas se tornou uma crítica de Corbyn. Ela critica a conivência do líder com as “facções mais radicais” do partido, que segundo ela, espalham ódio e racismo.

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Chris Williamson MP

Fevereiro, 2019 – Deputado diz que o partido “cedeu muito terreno” aos que o acusam de antissemitismo.

Em vídeo publicado nas redes sociais, o deputado Chris Williamson aparece defendendo o partido das acusações de antissemitismo. Mesmo tendo pedido desculpas mais tarde, Williamson foi afastado. Sua afiliação foi restaurada em junho de 2019, para se revogada novamente em julho após clamor público.

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Crédito: YouTube BBC Panorama

Julho, 2019 – O programa Panorama, da BBC, mostra um esquema de acobertamento de denúncias

Apesar de ser acusado de ter um viés anti-Corbyn, o programa entrevista alguns dissidentes do partido, entre eles ex-funcionários. Eles contam as vezes que foram silenciados e obrigados a assinar termos de confidencialidade durante processos de apuração. Muitos foram afastados com estresse e síndrome do pânico, eles disseram ouvir defesas de Hitler e ataques diretos aos judeus. As acusações pesam mais sobre os aliados diretos de Corbyn. Apoiadores de Corbyn acusaram a BBC e Tom Watson, vice-líder do partido, de complô contra Corbyn ou de retaliação pela indecisão deste em relação ao Brexit.

Conclusão: Há alternativas para o Labour na questão antissemitismo?

Os fatos acima revelam: 1) Muitos casos de bullying contra judeus documentados e comprovados; 2) Pessoas notórias envolvidas, o que aumentou o impacto e a compreensão pelo público e 3) A opinião pública contra ao Jeremy Corbyn pois  não buscou uma equivalência com, por exemplo, o preconceito contra muçulmanos no partido conservador, também recorrente.

Assim, ficam algumas perguntas: O Labour é mesmo antissemita como partido? Quem são os judeus britânicos? Qual a relação com o antissemitismo no país todo? Há um jeito de recuperar a liderança de Jeremy Corbyn? A quem este escândalo beneficia?

São respostas difícis de dar em julho de 2019 com o país mergulhado em outras questões, como o Brexit. Essas notícias mostram que a crise foi sendo gestada durante meses. Em todos esses incidentes, Corbyn foi neutro ou ausente, apesar de ele próprio receber ser defendido dos jornalistas chamados de corbynistas e da esquerda israelense.

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Jeremy Corbyn e Shadow Vice-Chancellor John McDonnell

Por outro lado, há uma mídia interessada na imagem questionável de Corbyn. É claro que um líder fraco do Labour fortalece a candidatura dos conservadores numa potencial eleição. É esse fator que também leva o Labour a uma guerra civil para que talvez Corbyn ceda lugar a alguém que possa ganhar a eleição.

Assumir isso não é negar os casos ou dizer que eles não merecem apuração, mas sim apontar para o fato de que eles ganharam mais força diante de um vácuo de poder dentro do Labour.

Em sua defesa, a liderança do partido explica que, no máximo, os casos se relacionam a má gestão e não má fé ou antissemitismo. É uma tese difícil de assimilar tendo o próprio partido obrigado aos tais membros a assinar termos de confidencialidade, o que os impede de vazar os casos para a imprensa, por exemplo.

Para dar um contexto, embora grupos judaicos tenham atestado o crescimento de incidentes antissemitas recentemente, o número de ataques é baixo se comparado com episódios envolvendo negros e outras minorias étnicas.

Por outro lado, defensores do líder do partido argumentam que Corbyn está pagando um preço por não ser pró-Europa e anti-Brexit. Após muita relutância, apenas nesta semana ele veio apoiar publicamente um segundo referendo com uma opção de permanecer no Bloco. Isso o teria deixado sem defensores e sem uma forte interlocução na grande mídia.

Em todo caso, o consenso entre comentaristas políticos é que a posição de Jeremy Corbyn é frágil. Muitos o acham inelegível, e os casos de antissemitismo fazem parte deste quadro. Outros o acham inepto, apesar de não ser antissemita.

O maior beneficiado, por assim dizer, é o vice-líder Tom Watson, que já foi a público pedir desculpas várias vezes pelo Partido em episódios assim. Watson também tem sido alvo do fogo cruzado de seus colegas de partido, depois de ele ter criticado uma das denunciadas no programa da BBC enquanto esta fazia uma quimioterapia. Nos resta apenas aguardar agora pela posse do novo Primeiro Ministro e ver como a equação política se resolve até a próxima eleição.

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