A eleição de Boris Johnson trouxe muitos fantasmas à tona no Reino Unido.

Um homem impopular que chegou, graças ao seu partido, ao cargo mais importante do país. Porém, Johnson não passou pelo escrutínio da população; não passou pelo teste midiático e nem entregou nada que o país pudesse se orgulhar. Pelo contrário, foi um prefeito de festa e pouco resultado.

Num período de turbulência como este,  o destino da milhares depende de um “bufão”.

Por outro lado, a democracia britânica sempre ditou regras para o mundo todo. Inspirou o sistema político de dezenas de países, especialmente na África e Oriente Médio. É o país da Magna Carta.

O blog Lá Fora traz uma série de três análises sobre as relações de privilégio e poder na democracia britânica e como elas afetam os tempos atuais.

Os textos tentam resumir alguns fatos conhecidos e esclarecer que, mesmo nos tempos turbulentos de Brexit, a política do Reino Unido segue uma lógica mais previsível do que imagina-se.

Sintetizarei aqui como a negociação formal sempre foi o pilar dessa democracia.  Sem passar pelo voto direto, decisões importantes foram tomadas no passado e esse foi o segredo da estabilidade registrada no país por décadas. Mesmo assim, a ascendência de Boris Johnson pressiona como nunca essa democracia de acordos.

Nesta primeira parte eu pergunto: Como a história pode nos informar sobre a crise atual?

Parte 1 – História, poder e a arte do arranjo

No best-seller Como as Democracias Morrem de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, os autores falam de democracia como um jogo em que não se deve sufocar muito o adversário para que ele não acabe e não haja mais o jogo.

O Reino Unido sempre seguiu bem essa regra. Quando não foi possível, acabou em tragédia, como no caso do rei Charles II (1630-1685), que perdeu a cabeça em praça pública.

Este é um jogo de poucos. Tanto os que estão no poder quanto os seus adversários sempre foram representados por uma elite, seja ela intelectual ou aristocrática.

Bem antes do Brexit e antes até do país se tornar uma democracia funcional, no final do século XIX, apenas dois partidos importantes reuniram o que em outros países é uma versão bem mais abrangente de democracia popular. Pensemos na Índia ou no Brasil, por exemplo, super populações e colégios eleitorais imensos. Voto compulsório na Austrália.

Suffrage campaign
Cartaz da campanha pelo sufrágio universal na Grã Bretanha

No começo do século XX, a campanha das sufragetes pelo voto feminino ficou famoso no cinema e na televisão, mas na verdade, o sufrágio universal – inclusive o de um número considerável de homens – foi lento e cheio de etapas que impedissem a voz dos da “baixa classe”. 

Como conta Andrew Heywood no seu livro Democracy A to Z, o direito ao voto foi sendo concedido por ondas: Primeiro os homens, depois os nobres, depois os educados até chegar nas mulheres e nos sem-domicílio. 

A monarquia constitucional britânica sempre foi mais associada a rituais que à participação, mais a valores que a processos. O ritual mais tradicional até hoje tem o Primeiro Ministro ajoelhando-se à Sua Majestade, que formalmente o indica para o cargo. Conferências de partidos sempre acontecem na mesma data, no mesmo local. O Primeiro Ministro fala ao parlamento sempre com hora marcada e debate uma série de questões já conhecidas, postas pelo mesmo membro da oposição.

Essa e outras não são regras escritas, mas convenções que permaneceram ao longo do tempo, não obstante a pressão por um país moderno, aberto e flexível.

Na verdade, o que entende-se por “política” nessas ilhas corresponde a essa sucessão de arranjos entre aqueles que detém o poder divino e os barões e proprietários de terra que data do século XIII. Hoje, esses rituais marcam essa convenção e sair deles é problemático, como veremos.

A Magna Carta, Brexit e legitimidade

A Magna Carta, um documento que carrega bastante simbolismo para democracias do mundo todo, é na verdade mais um registro desse “arranjo” entre o rei e os barões. É fundamental entendê-la como tal para compreender essa mentalidade de representação e acordo.

A_Chronicle_of_England_-_Page_226_-_John_Signs_the_Great_CharterA carta é a marca registrada da política como um “entitlement”, em que esses direitos concedidos pelo monarca seriam privilégio dos que têm um título de propriedade de terras e reinvidica direitos ou vantagens para si e próximas gerações.

Por séculos, a questão dos títulos e da representatividade, especialmente na Inglaterra, ficou a cargo deste parlamento mediador entre os grupos de interesses, o rei e seus barões.

Na sociedade de massas do século 20, a experiência da democracia direta, sem esse entitlement e sem o tempo necessário para a correta ritualização dos direitos seria ainda uma aventura para o país. Como garantir que todos estejam satisfeitos? Como garantir que os barões realmente falam a língua do povo?

Não é à toa que no auge da polêmica sobre o Brexit, o jornal Washington Post chegou a taxar a experiência da democracia direta no Reino Unido como “perigosa“.

O Brexit talvez seja o exemplo mais óbvio sobre como a democracia direta continua impopular por aqui. O maior exercício democrático já feito acabou em uma discórdia insanável e um resultado até agora irrealizável.

Será que a falta de representatividade levou a um referendo cujos eleitores não mediram (ou foram enganados sobre) os efeitos devastadores da sua decisão?

Seja como for, o resultado de junho de 2016 tem tido um peso catastrófico. Como lidar com a tal vontade popular sem o usual “arranjo” entre poderosos? Como evitar que um segundo referendo seja visto como um outro arranjo, mas a legitimidade monárquica? Se houver outro arranjo sem a rainha, como reduzir  a suspeição em torno daqueles que o negociam (neste caso a União Europeia e Westminster)?

De qualquer forma, reverter a saída da Europa significaria por a democracia direta sob ainda mais suspeição numa época de políticos desgastados.

Boris Johnson e a história

Tendo em mente esse histórico, a eleição de Boris Johnson pelo partido conservador, não sendo de forma direta, teve menos impacto negativo do que o esperado.

Não que ele venha de família aristocrática. Johnson teve a sorte de entrar no círculo de Oxford, aquele mesmo que elegeu David Cameron (foto de capa). É basicamente composto pela escola Eton e a Universidade de Oxford. Um grupo fechado que reúne esses privilégios de representação no nosso tempo.

Johnson formou-se no curso da elite: história clássica; seguiu a carreira natural da elite: o jornalismo. Foi apresentador na BBC, teve um cargo “paletó na cadeira” de correspondente em Bruxelas para o conservador Daily Telegraph.

Sem boa reputação até dentro da sua própria constituência, no bairro periférico de Uxbridge, em Londres, Johnson conseguiu manter-se como parte da elite e até ser eleito prefeito.

No governo Theresa May, Johnson virou secretário do exterior e cometeu uma sucessão de gafes. Entre elas, a de ter dito que a anglo-iraniana Nazanin Zaghari-Rathcliffe, presa no Irã há meses, estava no seu país de origem “ensinando jornalismo”, o que é ilegal naquele país.

Diante de desacordos com May, Johnson renunciou ao cargo de secretário mas continuou na mídia. Depois de tudo isso, ninguém conseguiu tirar-lhe do destino de ser o favorito ao cargo de Primeiro Ministro, mesmo em tempos tão incertos. Como uma prova de que a noção de privilégio existe, muitos que conviveram com ele sabiam da grande chance de que ele tinha de virar o Premier.

Mesmo aqueles que se manifestaram contra a essa ascensão de Johnson e ameaçaram sair do partido conservador em protesto, como foi o caso do remainer Lord Heseltine, ainda não tomaram qualquer medida. E dificilmente o farão.

Diante do escárnio, um pequeno protesto foi para a frente do palácio de Buckingham, mas poucos no país ousaram a se rebelar seriamente contra a falta de opções ou pela ausência de eleições diretas.

A oposição contra o discurso radical que elegeu Johnson fica confinado a parte da mídia e de maneira discreta. Fala-se em crise constitucional e em pedir a opinião formal da rainha Elizabeth no caso de Johnson desafiar um voto de confiança do parlamento e permanecer no cargo. Teremos de esperar e ver quais o que aconteceu.

Na próxima parte, abordarei outros exemplos de privilégio no que diz respeito às idas e vindas de personagens na vida pública.

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