No Reino Unido, entrevistas televisivas podem acabar mal. Às vezes para o entrevistador, outras para o entrevistado.

Muito disso é por causa de políticos e celebridades que escapam das perguntas, mas também deve-se ao fato de que os jornalistas britânicos seguem uma tradição de deixar o entrevistado numa saia justa.

É o caso do apresentador de rádio John Humphrys. Ele apresenta o influente Radio 4 Today da BBC e ficou famoso pelo estilo ácido com que interrompe seus convidados ou interpreta de forma exageradamente o que eles dizem, sem dar tempo pra resposta.

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O veterano jornalista da BBC, John Humphrys

A entrevista passiva-agressiva é aquela que o entrevistador começa suave mas, de repente, assume o protagonismo da conversa com desvantagem para o entrevistado. Seja por querer retirar uma versão específica de um fato ou evento, ou por intimidá-lo ou constrangê-lo sem alguma razão muito clara. Às vezes a razão é gerar manchetes, mas tem vezes que a coisa perde o propósito.

É fato que jornalistas têm de ser assertivos e provocativos se querem retirar algo de valioso de seus entrevistados. Porém, na Inglaterra, essa ideia tem sido levada ao extremo.

Há casos em que se dá razão ao entrevistado – ninguém é obrigado dizer aquilo que não quer. Em outros, o entrevistado merece ser provocado, mas mesmo assim se sai bem. Este foi o caso do acadêmico e guru canadense Jordan Peterson, que acabou sendo mais agressivo que a entrevistadora do Channel 4. Em outros, a coisa desce a um nível ainda mais violento, com troca de insultos, como foi o caso de Tarantino, em entrevista ao mesmo canal.

Vejamos abaixo algumas entrevistas que fizeram sucesso nas redes sociais pelas razões erradas:

1) Emma Barnett (BBC) vs Jeremy Corbyn

Corbyn está em campanha para Primeiro Ministro em 2016. É uma eleição repentina, chamada por David Cameron na ocasião do voto pelo Brexit. A entrevistadora Emma Barnett, conhecida por sua acidez e mau humor (especialmente com esquerdistas), tenta arrancar de Corbyn mais informações sobre a sua política de apoio a mães solteiras e suporte a famílias em dificuldade. Ela não quer apenas as ideias de Corbyn, cobra números específicos. Muitos desses números certamente são de conhecimento de assessores, mas não de Corbyn, menos ainda se forem exigidos no calor da entrevista, como fez Barnett. Não adiantou. Corbyn então estava preparado porque e tinha os detalhes. A imprensa adversária aproveitou o lapso e Theresa May acabou sendo eleita.

2) Krishnan Guru-Murthy (Channel 4) vs Quentin Tarantino

Guru-Murthy tem fama de ser o típico repórter inconveniente, que faz perguntas inesperadas, de assuntos que nem sempre pertencem à pauta numa determinada entrevista. Dessa vez ele conseguiu a ira de outro destemperado, Quentin Tarantino. Durante o lançamento de Django Unchained, o repórter perguntou o que Tarantino achava da polêmica que o filme provocava (sobre escravidão), o que Tarantino prontamente revida. Logo em seguida, o repórter pergunta por que ele gosta de filmes violentos. Dpois ele emenda: “Por que você está tão certo de que não há um laço entre violência de seus filmes e violência na vida real?”. Foi o bastante para Tarantino reagir de forma histérica: “Eu não sou seu macaco”, “Não sou seu escravo, nem você é meu senhor”. No segundo seguinte, Murthy tenta contornar, mas já era tarde demais e a entrevista termina com ambos sem graça.

3) Krishnan Guru-Murthy vs Richard Ayoade

Guru-Murthy não perde a chance de ter suas entrevistas afundadas pelos entrevistados. Durante o lançamento de um livro, ele entrevista o comediante inglês Richard Ayoade. Não só Ayoade usa seus dons de comediante para deixar o entrevistador sem graça, como ele foge completamente das perguntas politicamente-corretas sobre representação de minorias que o repórter tentava colocar. “Eu não detesto entrevistas, mas é como ir de transporte público para o trabalho, a gente tem que fazer.” Guru-Murthy poderia ter saído melhor dessa se não tivesse levado tantas preocupações éticas para o seu entrevistado. Um dos melhores momentos é quando Ayoade lembra Guru-Murthy da entrevista acima e aí é quando a entrevista termina.

4 ) Richard Madeley (ITV) vs Gavin Williamson

Durante o suposto ataque com a substância Novichock em Salisbury, um apresentador de TV pergunta ao secretário da defesa, Gavin Williamson, se este se arrepende de ter dito que a Rússia, país suspeito de ter patrocinado o ataque, deveria “calar a boca e ir embora”. Segundo o apresentador, Williamson teria usado uma linguagem xula para se referir a um problema maior. Williamson não só não respondeu a pergunta como começou a desviar do assunto. Madeley interrompeu o secretário duas vezes e acabou por cortá-lo e encerrar a entrevista.

5) Cathy Newman (Channel 4) vs Jordan Peterson

Essa é outro clássico de entrevistas que dão errado. Durante o lançamento do seu livro, 12 regras para o vida, Jordan Peterson falou ao Channel 4, emissora conhecida por ter programação independente e mais à esquerda. A entrevistadora Cathy Newman queria arrancar uma declaração polêmica do professor conhecido como líder dos grupos de direita, e insistiu que ele falasse sobre feminismo. Com perguntas do tipo: “Incomoda-lhe o fato que a maioria da sua audiência é masculina e branca?” e respostas tipo “Não me incomoda, mas há mulheres também”. E interferências: “Você está dizendo que…” e respostas como “Não estou dizendo isso…”, Peterson pode não ter dado as melhores respostas, mas ele com certeza fez Newman parecer desinformada às vezes, mal intencionada, em outras.

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