Na primeira parte desta série, o blog explorou a história por trás da noção de privilégio na política britânica. Vimos que a democracia britânica nunca favoreceu o voto direto, mas sim a prática do arranjo entre pares: Fossem esses donos de terra, religiosos ou nobres. 

O resultado é que até hoje as pessoas são desconfiadas de resultados que vêm diretamente do chamado “povo”. Eis o referendo que decidiu pelo Brexit e o risco de desfazer qualquer credibilidade no processo democrático direto.

Hoje, abordo como a trajetória dos políticos reflete a centralidade de elementos de classe, raça, e educação como determinantes de quem tem o poder. Esses tipos de privilégios (onde estudou, “de onde veio”) reduzem a chance de um governante que represente o povo de acordo sua trajetória pessoal, elevando a desconfiança naqueles que têm o poder, seja à direita ou à esquerda.

Como também discutirei, nem sempre aqueles foram do poder agem para eliminar essas estruturas de classe. Pelo contrário, eles continuam a alimentá-las e a querer corrigi-las por dentro.

Parte 2 – Eton e Oxford: Os poucos que governam

No livro “Posh Boys: How English Public Schools Ruin Britain”, Robert Verkaik expõe o que para muita gente parece muito claro: A política do país, apesar de contar com instituições tradicionais, famosas no mundo todo, segue o que acontece em dois recintos: O colégio Eton e a universidade de Oxford.

oxford balliol college
Entrada de um dos colégios da Universidade de Cambridge. Crédito: Flickr Paul Brooker

São representantes de Eton que irão para Oxford que tendem a ser os escolhidos para os quadros do partido Conservador e os mais rebeldes para o Labour. Os que não estão lá, frequentarão a universidade de Cambridge, considerado o equivalente à esquerda de Oxford.

Na parte 1 desta série, eu havia mencionado o exemplo de Boris Johnson, que de bufão virou Primeiro Ministro rapidamente. Aqui, exponho como a questão é ainda mais profunda.

Quadros de Oxford, e de certa forma, de Cambridge, entram não só na política formal, mas em todas as instituições importantes politicamente: Partidos políticos, sindicatos, a mídia e até a igreja Anglicana.

Sem contar com esse apoio de berço, políticos como Jeremy Corbyn, líder do Labour, que não possuem esse histórico, são minoria (o que exploca em parte o culto em relação à sua figura).

Uma pesquisa da fundação Sutton, que estuda o poder no Reino Unido, apontou que pelo menos um quarto do parlamento vem de “Oxbridge” (Oxford + Cambridge) e mais metade estudou em escolas para alunos abastados.

Seja eleito e faça o que quiser

A consequência dessa limitada representação política – ou seja, apenas pessoas de uma certa casta representam outros que não contam com o mesmo privilégio, é inerente sensação de que políticos, se bem nascidos, fazem o que quer.

ZacGoldsmith
O deputado Zac Goldsmith

Um exemplo é o parlamentar conservador Zac Goldsmith, que representa o bairro de classe média alta Richmond.

Goldsmith foi recentemente nomeado como ministro do meio ambiente e desenvolvimento internacional no governo Boris Johnson.

A sua trajetória segue ao ritual Eton+Oxford e cumpre a risca o cenário descrito acima. Ele foi candidato a prefeito à prefeitura de Londres em 2016, mas foi derrotado por ter conduzido uma campanha racista contra Sadiq Khan.

Goldsmith vai de garoto de Eton à político fracassado, mas a história não acaba aí.

O seu privilégio não apenas garantiu-lhe a chance de recomeçar, como o fez se contradizer em várias frentes.

Eis um resumo da sua trajetória política recente de acordo com o site Político.eu:

Trustafarian (presidente de varias ONGs), filho de um brexiteer bilionário. Expulso de Eton por ter maconha no seu dormitório, ainda protesta a sua inocência. Bom amigo de Boris e da Primeira-dama. Imagem de camarada, mas teve a imagem arranhada por um erro de julgamento na campanha para prefeito de Londres de 2016, quando acusou seu oponente (Sadiq Khan) por supostos “links com extremismo muçulmano. Sadiq o estraçalhou de qualquer forma. Deixou os Conservadores por princípio por causa da ampliação de Heathrow. Esqueceu os princípios e voltou ao partido. Consegue o assento [no Parlamento] de volta.

É claro que a política não é o terreno da santidade. É normal que haja essas reviravoltas.

O problema que Goldsmith representa é o mesmo do privilégio que garante que essa zona de conforto na política. Não à toa, o tabloide Daily Mail noticiou que o príncipe Harry e a Duquesa de Sussex, Meghan Markle, viajaram quatro vezes num jato particular, mesmo fazendo campanha forte pelo meio ambiente. Fora da política, os nobres são seu espelho mais perfeitos.

A situação é bem diferente para aqueles que nasceram sem a mesma sorte.

A política nas margens

Políticos sem esse privilégio acabam por cair facilmente nas regras do jogo. Como um ditado velho no Brasil, “Aos meus inimigos, a lei”.

Foi o caso de Flora Onasanya, parlamentar pega dirigindo numa velocidade um pouco acima do permitido em 2018.

Ela sofreu processo disciplinar e perdeu seu lugar no parlamento. Onasanya era uma das primeiras deputadas negras a representar o distrito de Peterborough e uma das poucas na casa.

Outro problema que parece ser muito engendrado é que ninguém na verdade deseja abolir as instituições de prestígio do país, mas aumentar a sua participação nelas.

Um artigo do Financial Times discutiu como Oxford, sozinha, recruta mais estudantes de oito escolas privadas que de 2.900 escolas públicas. Isso deveria ser mais alardeado, mas poucos atrevem-se a protestar.

Por isso acaba sendo trágico que, nem a esquerda, nem grupos progressivas querem que Oxford seja menos influente ou estabeleçam políticas para reduzir o seu poder nas indicações políticas tanto no governo, quanto na mídia e no serviço público.

No geral, as pessoas apenas querem “purificá-la”. Ou seja, povoá-lá com alunos de perfis humildes e assim fazer do seu poder algo mais benéfico. O problema é que isso provavelmente levaria ao mesmo nível de elitismo, só que com novos participantes.

Rhodesstatue
Estátua de Cecil Rhodes na universidade da Cidade do Cabo depredada.

Derrubar estátuas, mas não as estruturas

Desde 2016, grupos protestam para derrubar a estátua de Cecil Rhodes, o movimento chamado #rhodesmustfall.

Cecil Rhodes foi um administrador do Império Britânico na África do Sul (O território da Rodésia foi batizado em sua homenagem). Rhodes é patrono da universidade da Cidade do Cabo e de várias outras instituições de ensino no mundo anglófono. Ele também empresta o seu nome para uma famosa bolsa de estudos que agracia anualmente alunos de países pobres com uma oportunidade de estudar em Oxford.

O argumento dos que protestam pela derrubada da estátua de Rhodes em Oxford e na África do Sul é que ele tinha opiniões racistas (não documentadas, dizem os defensores). Como resultado da chamada “descolonização” das instituições acadêmicas, qualquer referência a Rhodes merece cair no esquecimento.

Ao mesmo tempo, personalidades que pertencem a grupos minoritários britânicos acabam por contradizer esses movimentos e se juntar aos que idolatram alunos de Oxbridge.

Casos como o do historiador David Olusoga, criticado por receber uma medalha do “Império Britânico”, honraria máxima do país, são cada vez mais criticados.

Foi o mesmo caso com o rapper Stormzy, por exemplo, patrocina estudantes que querem estudar em Cambridge.

A crítica a personalidades negras ou de grupos étnicos minoritários se juntarem à elite é a legitimização dessa mesma política do privilégio.

Em resumo, mesmo sendo os pilares do privilégio político, as instituições de ensino e da realeza não são necessariamente atacadas por aquilo que mais colaboram: A invisibilidade política e a democracia no processo decisório em esferas de poder.

Pessoas que não fazem parte dessas instituições elitistas como Oxford querem entrar nelas e reformá-las.

No entanto, estudos mostram que, mesmo com um diploma de Oxbridge, pessoas que não vêm da elite continuam sendo preteridas em relação a estudantes brancos e de famílias aristocráticas, como Goldsmith.

Será que a ação daqueles que querem se juntar a Oxford ou Cambridge é suficiente para acabar com essa tradição do “clube”, em que só uma parcela muito pequena da sociedade é capaz de governá-la?

Como dizem os ingleses, será que é preciso jogar a água da banheira com o bebê dentro para que a coisa mude?

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