A Amazônia está em chamas. Em meio à comoção internacional pelos incêndios, justa e urgente, um fato velho veio à tona.

O quanto que a Amazônia, com uma entidade mitológica construída por europeus, continua viva e intacta.

A palavra europeus é empregada aqui como uma referência à Grande Mídia dos países anglo-saxões. São jornalistas e agências que produziram durante toda a semana uma enxurrada de reportagens nas quais propagavam o fim do mundo.

amazon forestFosse por meio de organizações não governamentais (ONGs), celebridades, políticos ou influencers, parte do alarme decorreu do velho mito de uma Amazônia intocada pelo homem. A floresta aparece na imprensa como a responsável pelo oxigênio global e cuja existência estaria comprometida em apenas dois dias.

Não que esses fatos não sejam verdadeiros. Mas a floresta já ardia há semanas. O desmatamento é um processo lento e constante com pouco destaque nas notícias internacionais do cotidiano. O lobby de fazendeiros no Congresso Nacional existe há décadas.

Então só por que agora o pânico midiático?

Sem querer explicar o fenômeno na perspectiva da mídia, mas cultural, resumi abaixo três principais motivos.

Eu justifico essa “erupção” a partir da histórica concepção de europeus e norte-americanos liberais segundo a qual há excesso de romantismo em relação à Amazônia (e à natureza em geral).

Não estou sugerindo que a preocupação com a floresta é vã. No entanto, é necessário compreender a repercussão dos incêndios, assim como o interesse seletivo pela floresta e não pelo seu povo (não só indígenas), como um fenômeno midiático de origens profundas.

1. A histórica culpa do colonizador

Ao contrário do que falou Bolsonaro, o fato de Emmanuel Macron ter referido-se à Amazônia como “nossa” é oposto ao que teria dito um colonizador.

De fato, não só Macron depois veio esclarecer que ele se referia à Guyana Francesa (o que ele não estava, sejamos sinceros), como ele repetiu frases antigas para justificar-se. “Pulmão do mundo”, “futuro do planeta” e assim foi.

Macron certamente carrega muito da culpa do colonizador europeu que, tendo destruído não apenas as florestas nativas das Américas e muito do seu povo originário, recusa-se a ver a parte da qual não faz parte. Ou seja, não reconhece que populações inteiras vivem e viveram nas matas e cidades vizinhas. Que a floresta carrega bem mais de urbanismo e complexidade do que se quer admitir.

Segundo esse imperativo ético de reavivá-la, preservá-la, admirá-la, agora os europeus retornam mais fortes, sob pretexto das mudanças climáticas. Sempre foi assim desde o Iluminismo.

Jan Mostaert the Discovery of Americas
Jan Mostaert, “Paisagem com um episódio da conquista da América” (c. 1555). Crédito: The Rijksmuseum Amsterdã

Como discute Edward Said em Orientalismo, os europeus relacionam-se com o outro estrangeiro a partir de uma ideia de oriente, o “orientar-se”.

O outro estrangeiro, selvagem, é desde Rousseau, romantizado e barbarizado. O entendimento da natureza ao seu redor é visto, portanto, como de caráter exclusivo de cientistas europeus, dispostos a defendê-la diante da ameaça dos locais, estes ignorantes e insensatos.

Mas nem sempre a história real é essa. No livro Ecological Imperialism (Cambridge University Press), Alfred Crosby desvela-se para provar que europeus substituíram a biologia de lugares inteiros na Nova Zelândia e Austrália. Com isso, eles incentivaram a habitação de cantos remotos da Oceania, o que teve grande impacto biológico.

A imagem do Brasil e da América do Sul é diferente da desses países, é claro. Porém, especialmente para políticos que desejam parecer modernos e progressistas, que enfrentam um grande lobby em seus países, como é o caso de Macron, o discurso de proteger a natureza e valorizar a biodiversidade é de seu interesse.

Apesar disso, ele ainda esbarra no entendimento de que isso deve partir das populações locais. Com certeza, essa visão decorre de muitas dessas lacunas históricas.

2. O lobby das ONGs

Grandes organizações como Survival International e WWF, sem falar na Greenpeace, vêm por décadas influenciando o noticiário diário.

Essas instituições têm departamentos inteiros dedicados ao relacionamento com jornalistas. Os chamados “grupos de pressão” são os que enviam press releases a todo momento com o resumo do que acontece em áreas sensíveis do planeta. Não é teoria da conspiração do Bolsonaro.

Se esses materiais promovem, ajudam ou influenciam o jornalismo, isto é outra história.

Como jornalista, hei de admitir que materiais recebidos de ONGs são valiosos porque ajudam a monitorar situações e conflitos que quase sempre escapam das notícias. Sem falar que a maioria das redações conta com quase nenhum repórter fixo ou especializado no assunto.

Por outro lado, o enfoque promovido por essas ONG globais pode ser exagerado e por a prioridade apenas em um lado do assunto.

No caso da Amazônia, quase sempre (e obviamente) é priorizada a fala das comunidades indígenas e ativistas anti-desmatamento.

Ao mesmo tempo, não é o intuito dessas organizações promover a voz de fazendeiros e lobistas que, apesar de contrários à pauta ecologista na maioria dos casos, também são atores que vivem nessa região.

Sem defender qualquer um dos lados, mas reconhecendo o risco do desmatamento e a urgência das queimadas, é possível enxergar um cenário em que décadas de comunicações de ONGs influenciem, de certo modo e não sempre, negativamente.

A ênfase em um dos lados da história chega aos europeus, a milhares de quilômetros de distância, de forma distorcida.

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Região de Alta Floresta (MT) com focos de incêndio. Fonte: NASA

Isso acontece não apenas por causa do ângulo das notícias diárias. Outros elementos da notícia, como a formação de jornalistas, o crescimento do “jornalismo ambientalista“, as novas prioridades editoriais e o jeito de contar as histórias também são fundamentais.

Essa erosão de princípios jornalísticos, como a imparcialidade, os dois lados etc (com algumas exceções) provoca um quadro de desinformação conjuntural sobre a Amazônia lá fora.

A enorme área de floresta é vista como um grande vazio ocupado por árvores e a salvação imediata de um norte poluidor. Este espaço é, segundo essa visão, da “comunidade internacional” e portanto deve ser isolado do resto do Brasil.

Essa visão não percebe que, na verdade, a Amazônia não só hospeda cidades populosas, como Altamira, no Pará, como já foi ocupada por muitos outros períodos na história pré-colombiana.

3. O vácuo de poder na região

Se comparada com outros grandes ecossistemas mundiais, como a Grande Barreira de Corais da Austrália, as florestas tropicais da Indonésia ou as savanas africanas, a Amazônia conta péssimos exemplos de liderança local.

Iniciativas como o Grand Barrier Reef.org, um site que centraliza todas as atividades de turismo e preservação na região dos corais australianos, ainda estão distantes de serem implementados na região amazônica.

Não só porque o que entendemos por Amazônia estende-se por vários países, mas porque falta liderança em cada um deles.

As análises que focam apenas nas queimadas como resultado do agronegócio ou como políticas do Bolsonaro esquece o pano de fundo de pobreza, violência e ameaças a seres humanos que habitam o local. São eles que poderiam ajudar a preservar floresta.

Essa é a bandeira histórica de ecologistas como Chico Mendes, mas que nunca foi levada à sério por sucessivos governos. Acaba tornando-se rixas locais, que vitimaram tantos, inclusive a missionária Dorothy Stang.

Ao contrário desta, poucos contam com a solidariedade internacional e a punição de criminosos. Só no mês passado, uma rebelião no presídio de Altamira deixou dezenas de mortos.  Na Amazônia peruana, 2018 também foi de recorde de desflorestamento.

Esse cenário demonstra que falta recursos, instituições, materiais e tecnologia, mas acima disso, falta liderança para levar o que acontece para Brasília e outros fóruns mundiais.

Não espanta que ONGs e vários grupos autônomos tenham assumido o controle da narrativa e reportem diretamente para audiências atentas no exterior.

No entanto, as soluções propostas por essas organizações não passam por parlamentos nacionais (que continuam indiferentes e ignorantes) e sim pelos boards dessas mesmas instituições. Uma liderança democraticamente eleita poderia fazer mais e melhor.

Contra uma Amazônia dos contos de fada

A narrativa sobre a Amazônia acaba sendo a que mais cabe no interesse do europeu médio e dos grupos ambientalistas. Como disse, esses são bem intencionados mas não são eleitos pelo povo.

Eles dedicam-se (com razão e mérito) a combater o discurso populista e desinformado da extrema-direita, mas acabam por sair de um plano sustentável que envolva as populações locais.

A semana passada provou que há uma mistura de indiferença histórica com a explosão midiática que põe Madonna e Leonardo di Caprio falando com políticos e religiosos ao mesmo tempo.

A atual polarização da narrativa e o ódio contra a retórica inconsequente do governo bolsonarista também reforça essa histórica romantização da Amazônia como um local puro e intocado por opor-se radicalmente à sua preservação. Enquanto aqueles que nela vivem são esquecidos ou, no melhor dos cenários, infantilizados, apagados da história.

Uma liderança responsável que pudesse capturar o interesse das audiências internacionais pelo assunto poderia mudar essa concepção e apresentar-lhes melhor quem são os povos amazônicos, suas cidades e sua indústria.

Qualquer ajuda financeira será inócua se o assunto sustentabilidade continuar a ser entendido em termos tão rasos e a Amazônia ocupar esse enorme espaço num conto de fadas.

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